Sobre Êxodos, do Folias (estreia apontada para Setembro de 2009)
O espectáculo Êxodos está a ser preparado a partir de um primeiro guião que foi esboçado durante cerca de um mês e meio, a partir de uma pesquisa de materiais feita durante o ano anterior, e através de uma escrita colectiva mesmo: todas as cenas têm as mãos de duas, três, quatro pessoas, que durante esses dias escreveram, reescreveram, cortaram, editaram e apagaram em conjunto. Esta é a primeira de uma série de coincidências felizes: o processo criativo espelha o processo de colaboração entre desconhecidos, que é uma das facetas dos mundos dos migrantes. E apesar de a maioria da equipa de Êxodos trabalhar junta há anos, não se podendo dizer que sejam estranhos, a equipa incluía também recém-chegados, entre os quais dois estrangeiros certificados (um basco e um português). Esta é outra das coincidências, o facto de o tema das migrações internacionais ser trabalhado por uma equipa razoavelmente internacional e cosmopolita. E outra: a estrutura dramática é fragmentada, como supomos que seja a experiência dos nómadas contemporâneos, em curtas, pequenas, breves, minúsculas cenas. As personagens nunca se conheceram antes, mas partilham uma certa identidade comum, às vezes a língua, certamente as circunstâncias. A penúltima das coincidências: o espectáculo tenta retratar o modo como as coisas parecem andar todas ligadas, como se uma ordem superior pudesse dar sentido ao mundo, fazer justiça poética, e de caminho dar-nos alguma esperança. Mesmo um europeu céptico como eu, ao verificar todas as coincidências significativas que rodearam este projecto desde a primeira hora, e o modo como a vida se foi encarregado de tudo, é claro que fica mais supersticioso que antes.
A última coincidência é mais funesta. Êxodos faz eco, por entre os contos e as palavras de Garcia Marquez e as fotos e legendas de Sebastião Salgado, de alguns excertos da Bíblia e de alguns requiem (Mozart, Britten, Glass). No nosso espectáculo, uma personagem pivô, na forma de anjo-narrador, sugere a figura do artista que revê a vida em retrospectiva. É como se os anjos, habituados a falar com as pessoas durante o sono, em sonhos, estivessem perdidos nos sonhos do início do milénio, sem reconhecer os caminhos e as portas, e sem chaves para entrar nessas casas que habitamos enquanto dormimos; e assim sendo, perdessem a capacidade de voar, as asas ossificando lentamente até ao dia em que não batem mais; e como se estes deuses abandonados quisessem perceber o que está a acontecer, e este espectáculo fosse a última vontade do anjo-narrador. A figura do artista revisita os seus passos. Inspirações maiores para esta fábula foram Sonhos, de Akira Kurosawa, ou 8 1/2, de Fellini, claro. O falecimento de Reinaldo Maia, cujo carreira artística encaixa neste perfil, veio trazer uma amarga verdade a tudo isto, e iluminar ainda mais de negro os passos dos migrantes. Mas que justiça haverá nisto? A aventura dos migrantes é uma metáfora da condição dos artistas de teatro, claro, mas sobretudo da dos cidadãos das nações modernas, exilados na própria terra. Quando o destino de um artista coincide com o destino da sua sociedade, será compensador ou não (em vida), mas salva-lo-á (na morte).