Peças Soltas

as peças de teatro de Jorge Louraço Figueira …e não só

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Sô Quixote!…

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No outro dia, saindo do ensaio, perdi-me nos acessos à auto-estrada, e quando dei por mim estava em São João do Campo, parado a ver um rebanho de cabras atravessar a linha ferroviária antes da passagem do Intercidades. Momentos antes, relendo a obra de Cervantes, diria que pastores, moinhos e azenhas eram uma coisa seiscentista. Mas não. Afinal eram do século XXI. E foi isso que quisemos sublinhar. Apelidámos esta versão como sendo «de coimbra», entre parêntesis, porque a personagem principal oscila entre o lugar imaginário de La Mancha e os lugares do Mondego, desde a Serra da Estrela, até à Figueira, passando pela Lusa Atenas, e entre os séculos XVI e XXI. O nosso modelo de Dom Quixote talvez seja mais essa personagem despassarada, com o casaco vestido do avesso, que alguns dizem que era Zeca Afonso, habitando uma Coimbra lunática, do que um velho fidalgo manchego (ainda que de possível origem portuguesa).

Procurámos o Quixote que nos fosse mais próximo, e por isso acabámos por fazer uma versão para dois actores e duas raparigas, com um cenário de refugo, um pouco à imagem do que é o Teatrão hoje, pegando nas limalhas, nas sobras, nos restos, para fazer alguma coisa que se veja. Com tanta reciclagem à mistura, parece uma versão ecológica das aventuras de Dom Quixote e do seu fiel escudeiro Sancho Pança, mas não é. A razão pela qual enchemos o cenário de entulho é porque ele representa o uso, a velhice, o desperdício e nos obriga a agir para fazer o novo, o vigoroso, o futuro, a partir do que temos.

Piratas do Douro

Ilha-ctz_10Esta Ilha do Tesouro é uma versão para dois actores (e um papagaio) em que Jim Hawkins e Long John Silver revivem os episódios da obra original de Stevenson. A acção começa a bordo da escuna portuguesa Neptuno, destinada a Goa. A tripulação – o público – escuta atentamente as aventuras de Hawkins, agora capitão da marinha britânica, e de Silver, que se tornou taberneiro. Os dois foram recolhidos de um tonel de Vinho do Porto, onde entraram para sobreviver às cheias do Douro… e tendam seduzir os marinheiros com as suas aventuras nos mares do sul.

Dom Quixote das Crianças

DQ das crianças M LobatoEnquanto se prepara um Senhor Quixote em Coimbra, eis um maravilhoso pedaço de prosa de Monteiro Lobato, para os fãs do Sítio do Picapau Amarelo:

«Dona Benta interrompeu a narrativa para atender a uma pergunta de Pedrinho. O menino queria saber se ela estava contando a história inteira ou só pedaços. — Estou contando apenas algumas das principais aventuras de Dom Quixote, e resumidamente. Ah, se fosse contar o Dom Quixote inteiro a coisa iria longe! Essa obra de Cervantes é bem comprida; passa de mil páginas numa edição in-16. Mas só os adultos, gente de cérebro bem amadurecido, podem ler a obra inteira e alcançar-lhe todas as belezas. Para vocês, miuçaIha, tenho de resumir, contando só o que divirta a imaginação infantil. — In-16, vovó? Que quer dizer isso? — É uma medida do formato dos livros. Os livros são feitos de papel, como você sabe. O papel vem da fábrica em folhas. Em cada folha imprime-se um certo número de páginas. Espere… O melhor é dar um exemplo. Traga um jornal.

«Pedrinho foi buscar um número do Jornal do Comércio, que Dona Benta toda a vida assinou por ser um dos mais antigos do Brasil. — Pronto, vovó — disse ele. — Aqui tem um. — Muito bem — disse Dona Benta. — Vamos agora tomar uma folha inteira e desdobrá-la sobre a mesa, assim. Aqui tem você uma folha de papel. Se dobrarmos esta folha pelo meio, quantas páginas ficam? Página é um lado só do papel. — Pedrinho dobrou a folha de papel e contou. — Ficam quatro páginas. — Isso mesmo. Ora, se imprimirmos um livro em páginas desse formato, esse livro se chamará um infólio. Agora dobre o papel mais uma vez e veja quantas páginas dá. Pedrinho dobrou a folha de papel e viu que dava oito páginas. — Muito bem. Um livro impresso em páginas desse formato é um livro in-oitavo, ou in-8. Dobre o papel mais uma vez e conte. Pedrinho dobrou o papel mais uma vez e contou dezesseis páginas. — Isso mesmo. Um livro impresso em páginas desse formato é um livro in-dezesseis, in-16. Dobre o papel mais uma vez e conte. Pedrinho dobrou o papel mais uma vez e contou trinta e duas páginas. — Justamente. Um livro impresso nesse formato é um livro intrinta e dois ou in-32. Dobre mais uma vez. Pedrinho dobrou e viu que dava sessenta e quatro páginas. — Isso mesmo. Um livro impresso nesse formato é um livro insessenta e quatro, ou in-64. — E se eu dobrar mais uma vez, teremos o formato in-128, que é o dobro de 64; não é assim? — perguntou o menino. — Exatamente. — Ora veja só, vovó, uma coisa tão simples e eu não sabia! Vou ensinar a Narizinho.

«A menina vinha entrando. — Narizinho — disse ele —, venha aprender uma coisa que você não sabe… — Depois. Temos novidade — respondeu ela. — Emília anda lá fora fazendo as maiores loucuras. Virou cavaleira andante e obrigou Rabicó a virar Rocinante. Arranjou escudo, lança, espadinha e até armadura. E quer atacar Tia Nastácia, dizendo que não é Tia Nastácia nenhuma, e sim a giganta Frestona. O pobre Visconde segue atrás como escudeiro, vestido de uma roupa larga, que Emília encheu de macela para que ficasse gordo e barrigudinho como Sancho. Só vendo, vovó! Está doida, doida…»

Qual Fox, qual AXN, qual quê…

 

Esta é que é a série do momento. Para ver antes, durante ou depois – mas, por favor, nunca em vez de.

Vingança poética

Sobre Êxodos, do Folias (estreia apontada para Setembro de 2009)

O espectáculo Êxodos está a ser preparado a partir de um primeiro guião que foi esboçado durante cerca de um mês e meio, a partir de uma pesquisa de materiais feita durante o ano anterior, e através de uma escrita colectiva mesmo: todas as cenas têm  as mãos de duas, três, quatro pessoas, que durante esses dias escreveram, reescreveram, cortaram, editaram e apagaram em conjunto. Esta é a primeira de uma série de coincidências felizes: o processo criativo espelha o processo de colaboração entre desconhecidos, que é uma das facetas dos mundos dos migrantes. E apesar de a maioria da equipa de Êxodos trabalhar junta há anos, não se podendo dizer que sejam estranhos, a equipa incluía também recém-chegados, entre os quais dois estrangeiros certificados (um basco e um português). Esta é outra das coincidências, o facto de o tema das migrações internacionais ser trabalhado por uma equipa razoavelmente internacional e cosmopolita. E outra: a estrutura dramática é fragmentada, como supomos que seja a experiência dos nómadas contemporâneos, em curtas, pequenas, breves, minúsculas cenas. As personagens nunca se conheceram antes, mas partilham uma certa identidade comum, às vezes a língua, certamente as circunstâncias. A penúltima das coincidências: o espectáculo tenta retratar o modo como as coisas parecem andar todas ligadas, como se uma ordem superior pudesse dar sentido ao mundo, fazer justiça poética, e de caminho dar-nos alguma esperança. Mesmo um europeu céptico como eu, ao verificar todas as coincidências significativas que rodearam este projecto desde a primeira hora, e o modo como a vida se foi encarregado de tudo, é claro que fica mais supersticioso que antes.

A última coincidência é mais funesta. Êxodos faz eco, por entre os contos e as palavras de Garcia Marquez e as fotos e legendas de Sebastião Salgado, de alguns excertos da Bíblia e de alguns requiem (Mozart, Britten, Glass). No nosso espectáculo, uma personagem pivô, na forma de anjo-narrador, sugere a figura do artista que revê a vida em retrospectiva. É como se os anjos, habituados a falar com as pessoas durante o sono, em sonhos, estivessem perdidos nos sonhos do início do milénio, sem reconhecer os caminhos e as portas, e sem chaves para entrar nessas casas que habitamos enquanto dormimos; e assim sendo, perdessem a capacidade de voar, as asas ossificando lentamente até ao dia em que não batem mais; e como se estes deuses abandonados quisessem perceber o que está a acontecer, e este espectáculo fosse a última vontade do anjo-narrador. A figura do artista revisita os seus passos. Inspirações maiores para esta fábula foram Sonhos, de Akira Kurosawa, ou 8 1/2, de Fellini, claro. O falecimento de Reinaldo Maia, cujo carreira artística encaixa neste perfil, veio trazer uma amarga verdade a tudo isto, e iluminar ainda mais de negro os passos dos migrantes. Mas que justiça haverá nisto? A aventura dos migrantes é uma metáfora da condição dos artistas de teatro, claro, mas sobretudo da dos cidadãos das nações modernas, exilados na própria terra. Quando o destino de um artista coincide com o destino da sua sociedade, será compensador ou não (em vida), mas salva-lo-á (na morte).

Na despedida do cabaretier-mor

Reinaldo MaiaPara o Maia: na costa de Portugal os homens são enterrados à vista de grandes muros caiados de branco, e as mulheres arranjam as flores nos túmulos como se tentassem guardar os corpos longe do mar. Quem, por um momento, espreita os muros (mesmo com mau tempo a luz fere e obriga a desviar o olhar), pode ver que, por trás deles, a massa do Atlântico aguarda paciente a hora em que nos iremos encontrar no fundo do mar. Até à vista.

Cabaré da Santa na ESMAE

De Quarta-feira, 18, a Sábado, 21 de Março, às 21h30, no Café-concerto da ESMAE (à Rampa da Escola Normal).

Regresso ao Cabaré

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A pedido de várias famílias (o elenco tem treze pessoas!),  o CABARÉ DA SANTA regressa ao café-teatro da Oficina Municipal de Teatro, em Coimbra, para uma curta carreira, de 16 de Janeiro a 1 de Fevereiro, às sextas, sábados e domingos. Em Março o show estará no Porto, para algumas noites no café-concerto da ESMAE (à Rampa da Escola Normal).