Impostoria Geral do Estado [GALPÃO]

XXVIII FITEI
O Inspector-Geral, de Gogol, pelo Galpão
Porto, 13 de Junho de 2005

O Inspector-Geral, de Gogol, não é uma obra desconhecida dos portugueses: ainda há um mês passou uma versão de teleteatro na RTP Memória. E a longevidade parece assegurada enquanto houver províncias e uma capital, administração pública local e central, e meio mundo a tentar enganar o outro – existindo para isso o Estado como instrumento legítimo da operação financeira. Como se diz no texto, num país civilizado estas coisas têm regras. O Grupo Galpão (que tinha trazido a Portugal um Romeu e Julieta de inspiração circense) fez d’O Inspector-Geral um baile de máscaras à russa, mas com algumas piscadelas de olho ao público do FITEI: as personagens comem bacalhau e bebem vinho do Porto, e os nomes das localidades originais foram substituídos por terras lusas declinadas em simili-russo: Portugalev, Aveirinsky e Coimbrov…

A peça de Gogol é um tratado acerca da natureza da administração pública, mas também é um tratado da natureza humana e um desfiar de sonhos e fantasias sobre as quais o pano tem de descer antes que paremos de rir e a coisa se torne triste. Nesse sentido é um texto não só cómico como trágico. Nesta encenação, porém, as personagens são constantemente expostas por gestos ou esgares convencionais – os mesmos que Gogol repudiou nos ensaios da peça, e que impedem de nos acercarmos da dimensão tragicómica dos papéis.

A peça culmina com a leitura de uma carta onde o impostor lista os defeitos de cada um. O mesmo insulto ao governador é dito quatro vezes em voz alta. Enquanto até aí as falas apenas deixavam implícita a natureza das personagens, sem que elas se tocassem, é aqui, para gozo final do espectador, que os caracteres são tornados explícitos (a cena lembra as leituras de testamentos do teatro popular português). Mas quando o actor se vira para o público, na voz do governador que reflecte sobre o que lhe aconteceu, e afirma à plateia que ela apenas se ri de si mesma, o momento cai no vazio, entra por um ouvido e sai pelo outro.

Isto acontece porque o ponto de vista da encenação é de escárnio e desdém, e o objectivo da representação é descortinar o ridículo das personagens, numa presunção de estatuto moral por parte dos actores e demais criadores. Seguimos indiferentes às nossas próprias partes gagas. Alguma empatia com os sonhos de grandeza das personagens é que nos devolveria o riso. Por isso, a encenação não vai ao ponto de subtileza da comédia de Gogol. Escapa-nos o momento de terror em que seríamos apanhados, junto com os actores, na última cena, qual Dia do Juízo Final.

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