Um arrastão no Museu dos Transportes [ESEC]

Woyzeck, de Georg Büchner, pela ESEC
Coimbra, 15 de Julho de 2005

Cavalo Degolado é o título original, censurado, do romance Manhã Submersa, de Vergílio Ferreira. Nas trocas de imagens fortes por outras mais suaves está, em parte, a origem de uma arena cultural domesticada, onde não há pavor, só compaixão. Mas a vida é um circo de feras. traz para a boca de cena a violência abafada sob a arena pública, com a intenção de interpelar as zonas de bruma da sociedade portuguesa. A personagem principal, Woyzeck, está no meio desse picadeiro, à imagem de um cavalo ou de um touro, para gozo alheio. À medida que desfilam as atracções, é revelada uma hierarquia e o modo como ela se constitui diariamente, num todo, a partir dos actos de cada um. A obra de Büchner é um escalpe da engrenagem. A intuição do autor original foi revivificada neste espectáculo, a partir das circunstâncias dissecadas por uma dramaturgia contextualizada em Portugal (pelas artes, a imprensa e o dia-a-dia).

O projecto enuncia desde logo um objectivo: perguntar como e porquê a classe média inclui uns e exclui outros, isto é, designa presas e predadores. Grande motivo de reflexão, a encenação dispôs as personagens num coro teatral que tudo vê e tudo comenta, mas que também age sobre os protagonistas. Quando a trupe de actores se move no palco, a plateia agita-se por mero reflexo condicionado. Ganha corpo o sistema subtil de exclusão que empurra Zé para a vertigem de condenar a mulher que ama. Com isso, não só o espectáculo recupera o que de mais particular e emocionante têm as performances teatrais, como materializa a própria opressão dos outros sobre cada um, que é afinal a temática do espectáculo. A animalidade dos actores e a criação de personagens concretas, precisas e verdadeiras, demonstrando como nos condicionamos uns aos outros, é uma experiência viva.

O drama não acontece apenas à escala da sala de jantar, da faca e do alguidar, mas de forças colectivas que os indivíduos apenas pressentem. O fado, o destino, os deuses são aqui a projecção dos actos de cada um de nós. O coro replica a sociedade lá fora. Por isso, o espectáculo começa na calçada do Museu dos Transportes, e vem da rua para dentro de casa, para o palco, onde está montado o picadeiro. Zé é um biscateiro de quem todos abusam. Somos nós, a plateia. No final, o corpo de Maria é mostrado ao público como se tivesse tido lugar um sacrifício. O coro jura apanhar o delinquente. Por quem torcemos nós? O espectáculo leva-nos a pôr em causa a responsabilidade assumida por todos nos processos de exclusão a prazo. Esteja atento: já depois dos aplausos, mesmo à saída, há um Zé em cada esquina.

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