A ditadura da maioria compacta [VISÕES]

inimigo_normal.jpg

O Inimigo, a partir de O Inimigo do Povo, de Ibsen, pelo Visões Úteis
Porto, 6 de Novembro de 2005

Quase cem anos depois da morte de Ibsen (1828-1906), o esteio da sua obra ainda permite que os criadores teatrais interpelem a sociedade. Desta vez, a obra original Um Inimigo do Povo (1882) foi cortada e adaptada ao grupo Visões Úteis. Estreado em 2004, O Inimigo mantém um admirável sentido de urgência. Algumas das falas lembram as fórmulas gastas dos protagonistas políticos de noticiário e as personagens soam terrivelmente familiares. Do mesmo modo que a água das termas locais, fonte de prosperidade, está inquinada, também os pilares da sociedade democrática estarão podres. Num cenário de envenenamento e de «pântano», a «maioria compacta» é manipulada pelos «lobos», no caso o director do jornal, a presidente da associação de pequenos comerciantes, a presidente da câmara e os sempre ausentes accionistas das termas. A Imprensa, o Comércio e o Estado promovem a noção de interesse da opinião pública para melhor salvaguardarem os próprios interesses. A peça explora o desvirtuamento de uma das ideias da democracia: a maioria é quem dita as decisões. Contra esse desvirtuamento, o espectáculo faz uma apologia da responsabilidade individual e da independência de pensamento, bem como do papel das vanguardas no seio das democracias, em contraste com o papel dos lobos (e dos cordeiros, de pensamento vulgar, sacudindo os ombros e a água do capote). Por contraponto à imprensa, a arte do teatro parece poder assumir-se como um lugar de crítica social. Porém, no espectáculo como na peça, até o bom da fita sai penalizado: a cegueira do protagonista, intransigente em questões de princípio e absolutamente convicto da sua razão, não contribui para a defesa do ponto de vista que proclama. Começando cheio de boas intenções, no final fica isolado. Talvez por isso o tom geral seja farsesco e os dramas pessoais não tenham o peso que se imaginaria à partida. Os dilemas e conflitos internos não são usados para dar profundidade às personagens, e o monólogo interior quebra quando os actores não têm falas. As personagens são construídas a partir de fora, resultando emocionalmente ligeiras e estereotipadas. Sendo assim, o carácter de invectiva política do espectáculo prevalece sobre o drama por si só. Mas por outro lado, a caricatura da gestualidade sinistra de cada uma destas personagens nem sempre é desenvolvida e a poderosa arma de crítica social que a performance teatral tem – o retrato sofisticado dos tiques que revelam o embuste – também fica às vezes por usar.

Em resumo: o Inimigo é uma arrojada adaptação que, num tom de crítica farsesca, aponta as baterias ao cinismo dos poderes públicos e à desresponsabilização e egoísmo dos cidadãos

Anúncios

2 thoughts on “A ditadura da maioria compacta [VISÕES]

Add yours

  1. Uma das dificuldades que se levanta à tua abordagem crítica parece-me ser, quanto a mim, precisamente as várias coisas que tu tens de assumir à partida. E ás vezes parece-me que assumirás tanta coisa que poderás correr o risco de escrever sobre um espectáculo que nem sequer está em cena, ou seja, escreves não sobre o que viste mas sobre o que assumiste que ias/deverias ver.

    Eu não digo que tu não fundamentes as tuas afirmações mas sim que, em lugar de de apontares o que foi feito e julgares a pertinência e eficácia da opção, parece sempre que apontas o que poderia ter sido feito (isto é o que tu julgas que poderia ter sido feito) para depois diluires a opção do espectáculo algures entre os cánones (teus) que anteriormente apontaste.

    Isto pode parecer um preciosismo mas faz uma diferença fundamental. Assim, a tua metodologia tende a levar o leitor a achar que o criador falhou ao não acertar nas balizas que tu próprio defines. Quando provavelmente o criador as terá considerado e conscientemente recusado. Por isso digo que, por vezes, criticas um espectáculo que ninguém viu mas que, ao que parece, tu gostavas de ter visto. E neste exercício de crítica virtual acabas por não aprofundar um juízo acerca do espectáculo que viste, perdido que estás nas considerações acerca do que ninguém viu, porque não estava lá para ser visto.

  2. Pois é precisamente isso que faço: analiso o espectáculo em função do que foi feito e também do que não foi feito, imaginando para o efeito como poderia ter sido. É uma maneira de apontar o que foi feito, e de alargar o leque de opções, porque a maior parte dos criadores não considera realmente um leque amplo de opções, seja porque as desconhece, seja porque segue na voga de modismos. As balizas são escolhidas por mim, mas não arbitrariamente: tento socorrer-me de tudo o que já foi feito e esteja ao meu alcance: filmes, livros, espectáculos, outras obras de arte. O facto de o criador ter considerado e recusado algumas balizas não torna o espectáculo automaticamente bom (nem mau). Pelo contrário, há coisas que são recusadas levianamente e sem que no seu lugar se coloquem coisas novas e boas. Não é o caso do Visões.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: