Quem é ela? [RAINHA]

Ella, de Herbert Achternbusch, pelo Teatro da Rainha
Porto, 18 de Novembro de 2005

A memória da segunda grande guerra é um dos pilares da sociedade europeia contemporânea, cada vez mais reproduzido na ficção, à medida que os protagonistas directos desaparecem. Na Alemanha, o silêncio das gerações que conviveram com o nazismo é um tema de debate recorrente e boa parte dos criadores ficcionais debatem-se, e debater-se-ão ainda, com o relato dos factos. O mutismo de Ella frente ao televisor, enquanto o filho relata, na primeira pessoa, os episódios de vida da mãe, devolvendo a imagem dela, espelha um desesperante abandono face aos acontecimentos de uma vida no século XX. Mas realmente, o que terá a ver a programação dos canais televisivos (no tempo presente da peça) com, por exemplo, o nascimento de uma criança sifilitíca por volta de 1948 (um dos vários passos da cronologia de Ella)? A mãe deixou de falar por escapismo e alienação? O que pretende o filho ao imitá-la continuadamente – acordá-la do estupor? Separados dos actores por uma língua de areia que termina num comedouro de milho e culmina numa rede com arame farpado no topo, os espectadores vêem Ella do ponto de vista das galinhas e, no final, quando soa o toque para o desfecho da peça, estaríamos por segundos dentro do campo. Daí assistimos ao rol dos actos de violência particular exercidos sobre a personagem (e às respostas desta, claro), num delinear das lógicas de exclusão nos anos vinte e trinta, e das suas ramificações no pós-guerra. A peça é uma metáfora do pequeno nazismo, gérmen da opressão em grande escala, aliada à ciência e à igreja, que atingiu o auge nos últimos anos da guerra. Para teatralizar essa exclusão em massa numa história de vida singular, o espectáculo mostra uma válida etnografia do gesto e da oralidade (no corpo e voz de um actor que faz uma personagem que faz outra) que nos guia através das memórias pessoais, do uso dos objectos diários, e das localidades germânicas por onde passou Ella, entre 1914, data do nascimento da personagem, e o final dos anos sessenta, quando vai viver para um galinheiro na casa da irmã. Não é apenas um registo da forma, mas das vivências sujeitas à lei do mais forte na Alemanha do séc. XX – com as quais nos podemos identificar mais do que com os filmes de campos de concentração. Os nomes das terras são imemorizáveis para o comum dos espectadores, mas os modos da fala e o que eles exprimem inscrevem-se duradouramente na lembrança do espectáculo.

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