Oh, que belos dias no Palácio! [MONTEMURO]

XXV FAZER A FESTA
Qaribó, de Abel Neves, pelo Teatro Regional da Serra de Montemuro
7 de Maio de 2006
Dias Felizes, de Samuel Beckett, pelo Projecto Cem Beckett
10 de Maio de 2006

Qaribó, como outros espectáculos do Teatro do Montemuro, fabrica uma imagem do interior rural, primeiro para consumo próprio e depois para os contextos urbanos onde a companhia cumpre a sua vocação itinerante. Na peça, para maiores de quatro, um pai estafado pelo trabalho, viúvo, e com insónias, aprende a sonhar com os filhos, recuperando a alegria de viver depois de uma viagem pelo mundo imaginário de Qaribó. O título Qaribó soa às palavras Caribe, as ilhas, e Carimbó, a dança indígena da amazónia – paraísos a oeste. O espectáculo materializa não só a ruralidade mas também o mundo de aventuras da infância: o público começa por entrar num esconderijo de pano, que podia ser feito de toalhas e cobertores presos com molas, onde se senta no chão. Lá ao fundo, a tal imagem de uma casa rural. No chão almofadado, nas paredes de pano e no tecto há flores e árvores que brotam, olhos que brilham na escuridão, formas misteriosas, e papagaios de papel pendurados. Os filhos são marionetas manipuladas, como se, nas entrelinhas, a personagem sonhasse com uns meninos que não tem, escapatória à voz esganiçada da prima, matrona do campo, de jóias de latão ao peito. No campo todos têm a voz assim? Os actores que manipulam as crianças fazem uma voz característica de crianças e o pai faz voz de triste. Como se fazendo uma voz estivesse feita a personagem teatral. E o mesmo acontece com a voz de Winnie, em Dias Felizes. A jovem actriz usa um tom afectado para mostrar a personagem de cinquenta anos, como se essa entoação de voz significasse a idade de Winnie. O óbvio é dizer que a actriz é demasiado nova para o papel, e que em todo o caso o tom afectado será uma escolha de caracterização que representa algo. Mas há limites, e são eles que põem à prova a arte do actor. As características físicas são uma coisa a que não se pode escapar e mais vale torná-las um trunfo; em parte, a magia do teatro é ultrapassar essas limitações. A forma externa da prima do campo, das crianças, do homem sem sonhos, ou da mulher desencantada, dada pela voz, não dispensa os actores de jogarem as emoções em cena, ainda que na forma alheia de uma personagem ficcional. A representação da ideia de Winnie mostra-nos uma personagem em diferido. A actuação fica prejudicada, e a presença da actriz é muito maior quando faz as vozes concretas dos passantes que Winnie relata. Se é lendária a exigência de cumprimento pelo autor de todas as palavras e indicações, não deixa de ser verdade que as obras se abrem a vários significados e precisam de corpos e almas para se concretizarem. A acção, contudo, não deixa de comover os espectadores e o espectáculo Dias Felizes é absolutamente sério e uma boa maneira de conhecer parte da obra de Beckett. A fidelidade à obra é um exemplo de abordagem aos textos e a esperança que este grupo de criadores continue a trabalhar em conjunto deve ser acalentada. Quando daqui a vinte anos a actriz voltar a fazer Winnie, a memória deste espectáculo, e os socos que a vida nos der, farão da actuação dela um momento maravilhoso. Para lá da faixa etária, quem for ao Fazer a Festa passará uns belos dias de primavera teatral.

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One thought on “Oh, que belos dias no Palácio! [MONTEMURO]

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  1. Quaribó

    Um espectáculo dirigido a todas as crianças “que fazem castelos no ar e bagunça na Terra”. Faz com que qualquer adulto “reviva a grande importância das crianças no mundo dos graúdos: ensinar a Sonhar e a Sorrir”.
    Adorei ser convidada a entrar para conhecer a humilde casa de Serafim, num cenário mágico, onde tudo acontece mesmo em frente aos nossos olhos, ou debaixo do nosso rabo.“Um teatro dentro do teatro” onde se pode apenas entrar por uma pequena porta, com cuidado para não bater com a cabeça, e a participar da viagem ao país de sonho – “Quaribó”.
    Com pouca luz, sentei-me num chão fofo da cor da casa, da cor da vida daquele viúvo triste e apático, da cor da tradicional casa rural. E assisti à transformação de Serafim, homem pobre e trabalhador, cansado e triste, sem alegria para viver, nem tempo para sonhar…
    A minha atenção vai mudando de foco, a cada instante, como se uma criança, no caso duas, na forma de marionetas, com o triplo da minha energia me alertassem para tudo o que vêm e descobrem sobre o mundo, que nós, “crescidos”, já não damos importância por acharmos, ingenuamente, que já não precisamos de ver as coisas, porque já as conhecemos.
    Papagaios de pano que saem do tecto, peixes misteriosos que se mexem atrás das paredes moles, olhos que brilham no escuro, noite com estrelas, som de chuva, neve de espuma, um girafante, um camelo que faz adivinhas, um lagostim rei do mundo, flores que surgem do chão e caem do tecto, sons de passarinhos, música, bricadeira, faz-de contas… são as etapas que as duas marionetas cheias de energia e amor, inventam que o pai tem que ultrapassar, na jornada para Quaribó.
    Grande Abel Neves, que recria o encanto e o imaginário infantis, grande Helen que nosda de presente o magnifico e surpreendente cenário, onde o sonho é realidade, onde se reinventa a realidade do espaço cinzento da casa humilde, num ambiente colorido e fantástico, onde surge um novo sonho a cada “carneirinho” que passa.
    Marisa e Renato dormem agora, exaustos mas tranquilos, porque nos fizeram perceber que o sonho é indispensável à vida de qualquer pessoa, e que o sonho genuíno, é tão simples quanto a espontaniedade de uma brincadeira.
    Não batam palmas, público mal educado! Vão acordar os irrequietos meninos que finalmente dormem sossegados!

    O Montemuro nunca deixa de me surpreender…

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