Estamos a ficar malvistos? [VISÕES]

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XXIX FITEI
Mal Vistos, de Gemma Rodriguez, pelo Visões Úteis
Porto, 1 de Junho de 2006

O FITEI deste ano começou com espectáculos de criadores surgidos nos anos noventa (o Meridional, a Garagem, o Visões e João Garcia Miguel, ex-Olho), tendo como ponto alto a estreia de Mal Vistos, de Gemma Rodriguez; e abrindo, em ano Beckett, com a tradução de Francisco Luís Parreira de Waiting for Godot. Foi uma boa oportunidade para os espectadores do Porto verem e compararem, na mesma semana, o trabalho destes artistas, provavelmente o futuro do teatro em Portugal. Mas que importa isso? Será que os espectadores vão ver o trabalho dos artistas como quem vai ao museu, ou vão apenas ao teatro?

O Visões encenou um texto recente, de uma dramaturga viva, cuja cumplicidade com os últimos espectáculos do grupo parece natural. A encenação trabalha as insignificâncias quotidianas na vida de uma empresa, explorando a opressão sistemática e os abusos por parte de quem está acima na hierarquia. No topo da pirâmide andam, claro, os alemães – cuja imagem de poderosos opressores não será perdida tão depressa; e por baixo os habitantes da orla do mediterrâneo, cujo estilo mandrião é bem reconhecível. Sentem-se ecos dos temas kafkianos a que a companhia volta regularmente, desta vez localizados nesse campo de ficção e humor que é o escritório, algo também universal numa sociedade «terceirizada». A teatralidade de conversas com o intercomunicador existe, e até uma cena de elevador pode ser dramática. No início, as secretárias sóbrias e discretas evocam os blocos de uma fábrica, sugerindo o contexto. No final, o som dos tambores em fundo sugerem campanhas militares e a glória dos accionistas e seus generais que, de modo despersonalizado, conduzem a empresa de vitória em vitória até à derrota final. Talvez o desespero emocional das personagens pudesse ser mais visível. Mas as acções são tão mediadas pelo telefone, pela cortesia, pela polidez das relações de trabalho, pelo bloqueio institucional à revolta, que a contenção faz sentido. A peça mostra como mesmo num ambiente despersonalizado os nossos actos ou omissões têm consequências na vida concreta dos outros, e parece pedir que algo mude. Não que haja maus da fita: é um texto mais sofisticado que isso. Sem que deixemos de nos solidarizar com os indivíduos imperfeitos que estão entre os operários e os alemães da vida, a peça e o espectáculo deixam bem patente que eles não farão nada por nós. Talvez não haja nada a fazer por eles.

Godot começa também com uma impossibilidade de acção, materializada no mais concreto que há: a dificuldade de descalçar uma bota. Na peça as palavras são prosaicas e reconhecíveis. É de tal modo assim que onde as personagens estão é simplesmente num teatro. Foi por esse caminho que seguiu a encenação do Meridional: a árvore irrompe pelo tablado como se tivesse germinado no sub-palco. Foi nesse palco para o confronto com a fugacidade da vida e a dependência que temos uns dos outros que os actores arrancaram as actuações mais comoventes do festival, plenas de sentimentos e comicidade. Em contraste com o espaço e a acção unas da empresa de Mal Vistos e do palco de Waiting for Godot, os textos de Ácido e A Entrega fragmentam a acção e as palavras em vários episódios e quadros, por inúmeros locais e contextos, em falas ora longas ora entrecortadas, cujo sentido parece ser a expressão do mundo mental dos respectivos autores. Os textos desenrolam vastos argumentos sobre a realidade, como se contivessem a verdade. Pelo contrário, o Meridional ri-se de toda a verdade com a maior das crueldades, e o Visões faz-nos ter terror e piedade de um bando de malfeitores de fato e gravata. Talvez a maior diferença resida na passividade que se atribui e espera do espectador. Os textos geram um campo de comunicação onde o espectador é levado a pensar. Ao contrário do que se poderia pensar, as ficções de Gemma Rodriguez e de Beckett mostram acções e deixam as metáforas e reflexão para quem vê; enquanto as cenas e falas de A Entrega e Àcido dizem ao espectador tudo o que ele tem a saber. A expressão de uns é mais colectiva e mais objectiva, a expressão de outros mais individual – a mão e a mente do autor vê-se nas falas dos actores e na estrutura de A Entrega e Ácido, enquanto em Mal Vistos e Waiting for Godot sobressaem o jogo teatral e as personagens como causadoras de eventos.

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