Chamada de Berlim para Braga [PAULO CASTRO]

Red Sky, de e com Paulo Castro
Braga, 9 de Setembro de 2006

Chamada após chamada, uma mãe na Berlim ex-comunista faz de tudo para convencer o filho a passar lá em casa. O filho já não é comunista, diz ele, e do pai só se sabe que era russo. A mãe é Paulo Castro, de barba rija, que apresenta neste solo a tragédia em chinelos e robe de chambre: a queda do muro e do comunismo materializada numa mãe abandonada pela prole, que tenta em vão recuperar o vínculo primordial com o filho, recorrendo a lembranças do passado. Numa sociedade de imagens que não reconhece valor nem uso, pela vetustez ideológica, a uma ex-cantora de hinos de inspiração soviética, a tentativa está votada ao fracasso; como se as relações pessoais e familiares não pudessem sobreviver à cumplicidade política caída em desgraça. Solitária numa noite berlinense, ao mesmo tempo que frustra tentativas eróticas com a lâmpada quente do candeeiro de mesa e a extensão eléctrica da televisão onde se exibe o filme com o último dos soldados socialistas revolucionários, a mãe tenta inverter o jogo, transformando a culpa em castigo e fazendo o papel da vítima. O vínculo entre ideologia pública e egoísmo afectivo é vigorosamente traçado nesta performance, que deixa à mostra a função da filiação política na solução para amenizar a solidão urbana e familiar dos mais velhos, em especial na orfandade pós-soviética de alguns alemães de leste, mas também na sociedade de consumo imediato perfilhada pelos de oeste. Paulo Castro não se deixa enredar nas teias da metáfora política que poderiam esvaziar de emoção a personagem feminina. Pelo contrário, graças ao seu português claro (de Vila Real de Trás-os-Montes) e à precisão fotográfica com que decalca frases que todas as mães portuguesas usam ao telefone, expõe com nitidez as palavras banais recorrentes na manipulação pessoal. Estreado em inglês para berlinense ver, e com uma carreira internacional assinalável (depois de Vila Real e Braga repõe em Berlim nos próximos dias), o espectáculo tem ecos políticos cosmopolitas mas também efeito dramático local – ou não fosse a presença de uma figura materna uma chave para a psique nacional. Parafraseando António Variações, é um espectáculo entre Braga e Berlim.

O «E S P A Ç O» da Censura Prévia era um lugar abandonado onde se conseguiam ver as marcas da passerelle e de um varão de striptease, algum dia retirados. Nos últimos meses tem recebido várias performances e exposições e está agora em linha com Berlim, pelos vistos. Tudo é meio precário e um pouco improvisado, tal como no teatro de Paulo Castro, e a urgência artística ponto de honra nos projectos estéticos e éticos que ambos apresentam. Mas não só. Fazendo das fraquezas força, as salas e criadores alternativos que se apresentam assim tão despojados de meios procuram revelar a cara da verdade na face da ilusão.

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