E no fim da festa, atirar-se da janela [TMP]

Boca de Cena, pelo Teatro de Marionetas do Porto
Porto, 18 de Dezembro de 2007

Desta vez, sim, pode-se beber e fumar no cabaré de fim de ano do Teatro de Marionetas do Porto. Aliás, janta-se no espectáculo. Quem quiser fazer um balanço do ano teatral ao vivo pode dirigir-se ao convento de São Bento da Vitória, onde encontrará uma subtil reflexão sobre a condição dos actores e marionetistas da companhia, numa festa e espectáculo de Natal a pretexto da evocação dos vinte anos da companhia; e ainda por cima terá direito a matar a fome. As diversas cenas que acompanham e intercalam o serviço são ligações para a história do grupo, que durante 2008 vai repor os espectáculos anteriores; e permitem relembrar algum do teatro de 2007, graças à variedade dos números, por um lado, e à subversão dos papéis convencionais de actor e de espectador que o jogo de cena provoca. Pode também reflectir sobre o tipo de alimentação que faz ao longo do ano, e preparar-se para as rabanadas, os sonhos e as filhós. Mas, sobretudo, quem lá for vai encontrar uma outra ligação com espectáculos deste ano e de Natais passados – a festa como modelo possível de cena teatral, distinta da cena de rua ou da cena doméstica. (Essa parece ser uma das duas tendências emergentes no teatro da cidade do Porto em 2007. A outra é o design de cabelo dos Anjos Urbanos e congéneres.) O convite alargado à participação do público, a interacção com os espectadores, a animação de interlúdios; a sucessão de micro-eventos, de fragmentos de acção, de conversas, de números de variedades, recordações, anedotas, piscares de olho, canções – tudo se assemelha à estrutura de uma noite de celebração. Há até quem se atire de uma janela, como nas festas em condições. Se as Marionetas fazem vinte anos, é melhor que assim seja, e a destreza com que festejam é notável. E se as cenas de festa são uma tendência na composição de espectáculos, atingem aqui um grau de maturidade superior: os comensais frente a frente, como num banquete, formam parte do cenário do espectáculo, e uma filmagem com os rostos de todos antecede a citação de Shakespeare que encerra o espectáculo: “all the world’s a stage, and all the men and women merely players.” Ou seja, no final da festa, reconhecemo-nos como iguais, sob proposta das Marionetas, tendo partilhado os nossos sonhos vagos e efémeros. Há vésperas de Natal piores, como sabemos. O inconveniente é que o modelo parece esgotar as energias na dispersão de micro-eventos, e esse reconhecimento mútuo resulta apenas momentâneo. Mas é como todas as festas, não é? O espectáculo tem um momento especial quando são servidos teatrinhos à mesa, em tabuleiros rolantes. Revemo-nos nessas miniaturas, uma das quais regista a imagem que depois é projectada na despedida da festa. Mais uma vez, a mediação das marionetas faz com que a fantasia se concretize. Quem não gostaria de se atirar de uma janela?

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