A cantiga do bandido [ART’IMAGEM]

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Cantata para o honorável bandido Joaquin Murieta, pelo Art’Imagem
Maia, 27 de Março de 2008

A lenda de Joaquin Murieta foi iniciada por John Rolling Ridge, jornalista com um costado Cherokee e o nome índio de Yellow Bird. Fugido para a costa oeste depois de matar um homem, Ridge encontrou um modo de ganhar a vida com a edição da história do Bandido da Califórnia. A história de Murieta tornou-se tão popular que deu origem ao famoso Zorro. Dizem. Aos poucos transformado num Robin Hood do faroeste, alvo de inúmeras versões, a origem do bandoleiro foi apropriada conforme as conveniências narrativas e comerciais. No Chile fizeram-lhe uma estátua e, no final dos anos 1960, Neruda escreveu o poema épico com a voz do autor, diálogos em prosa e canções pelas personagens que deu origem ao espectáculo do Artimagem estreado o ano passado no TeCA, e de onde foi extraída esta Cantata para o Honorável Bandido Joaquin Murieta. Hobsbawm, o historiador, dedicou-lhe parte dos seus estudos sobre o banditismo social na tradição cultural ibero-americana. Para lá das motivações pessoais de cada bandido, o mais importante é o modo como as lendas de bandidagem materializam as aspirações colectivas. E por isso foi possível que, da Califórnia à Espanha e ao Chile, circulando em edições de cordel, um sanguinário e cruel assassino se convertesse num herói movido por um desejo de vingança justa, contra a opressão da hegemonia norte-americana, independentemente dos factos históricos. O destino de Murieta foi ver a sua cabeça exibida por vinte cêntimos o bilhete, numa feira popular do oeste norte-americano. O espectáculo do Artimagem começa com uma gravura oitocentista do bandido e termina com imagens do golpe, patrocinado pela CIA, que depôs Salvador Allende e trouxe Pinochet ao poder, seguidas daquela chuva no ecrã que se via há muitos, muitos anos, quando as emissões de TV eram interrompidas durante a noite. Na peça, Murieta enceta uma vingança depois de ver a sua mulher violada e assassinada por norte-americanos de origem inglesa. Neruda fez campanha por Allende e o encenador, Roberto Merino, é chileno. Por isso, o espectáculo é uma elegia da revolta social expressa pela narrativa da morte e vida de um fora-da-lei.

Esta apresentação teve algum azar a mais para Dia Mundial do Teatro. É um espectáculo de café-teatro, assente nas canções e nos versos, com alguns gestos e objectos aproveitados da montagem do ano passado, que se esperava aplainasse algumas lombas da peça de Neruda e mostrasse uma versão enxuta e intensa da visão poética do autor. Infelizmente, foi apresentado no auditório principal do Fórum da Maia, com as mais de 100 pessoas espalhadas pela plateia, quando pedia mesas, copos e cinzeiros. Cinzeiros já não seria possível, eu sei. O jogo com os espectadores, que alimentaria a representação, ficou suspenso, sem poder ser compensado pela densidade dramática que a versão anterior tinha, mas que esta tinha minimizado. Os actores pareciam sozinhos na sala. Um par de anciãos fazia jus à fama de velhos gaiteiros, comentando o espectáculo como se deitassem apartes num mau espectáculo de revista. A clareza dos gestos, a beleza dos símbolos cénicos e o prazer musical foram mantidos, mas a síntese poética e política desta cantata ficou comprometida por não ter sido apresentada nas melhores condições.

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