Um portal para nenhures [BRUTO]

Nenhures

Nenhures, de Daniel Jonas, pelo Teatro Bruto
Porto, 1 de Abril de 2008

Quando entramos na sala, há quatro pilares e, ao fundo, um pequeno palco com uma bola de cristal gigante. Uma centena de tijolos maciços, negros, está amontoada a um canto. São livros, afinal, de lombada negra e páginas brancas, como se os volumes de Próspero tivessem sido impressos a tinta invisível. Os músicos estão no tal palquinho e os actores cá em baixo, à nossa espera, seguindo um ou outro espectador com o olhar. Mal as luzes se apagaram, a senhora da fila de trás olhou para a cena e disse «é teatro moderno». E eu estive tentado a responder «não, é mais provável que seja pós-moderno», mais em cima das ruínas imaginárias do drama moderno do que após o classicismo. Mas ela podia responder-me que sendo assim era pós-dramático e eu, enfim, achei melhor calar-me.

De facto, há um emaranhado de citações e referências, comprovadas pelo programa do espectáculo, que dizem respeito ou ao repertório do Teatro Bruto ou a personagens da alta cultura, alter-egos de uns e outros, e que permitiriam rotular este espectáculo de pós-qualquer coisa. Além disso, tudo é meta-teatral, com a referência explícita ao próprio acto de representar. A este respeito, com algum uso da gíria teatral e dos estudos do drama, e um misto de narrador e deus ex machina que ora comenta ora define, presenteando-nos com canções pelo meio, o espectáculo vai avançando sempre com um olho no burro e outro no cigano. Porém, o ideal nem sempre bate certo com a prática. Durante a maior parte do tempo os Brutos actuam com uma quarta parede de betão que, mau grado vermos tijolos no chão e de pé apenas pilares, é inabalável. Só quando Mário Santos sobe a um caixote, qual profeta do Speaker’s Corner, pregando sobre a virtude alheia directamente para o público, surge uma ironia provocatória que faz jus às intenções declaradas da encenação. Nesse ponto do espectáculo, a ambição de confrontar o público fazendo tábua rasa de um passado vetusto e denunciando a escolástica da literatura dramática permite criar um momento de teatro que faz uso do elementar: um actor com imaginação. Já a procura de uma estética nova, de colagem de diferentes fragmentos, entre os quais a personalidade de cada um dos membros do grupo, ainda não foi conseguida. A comicidade física de Luciano Amarelo, o suave histrionismo de Mário Santos, o charme de rua de Pedro Mendonça, a placidez de notas trágicas de Salomé, tudo isso são coisas que têm de ser bem batidas.

Durante o resto do espectáculo, os actores desempenham alguns jogos dramáticos, com objectivos, obstáculos e acontecimentos, para acompanhar as palavras. Mas essa guarnição quase nunca está integrada no texto que dizem, e o entendimento das sequências verbais limita-se ao sentido auditivo, com os olhos a acompanharem a outra pista, a das actividades físicas, sem que se consiga efectuar uma síntese entre palavras e movimento. Talvez desse hiato pudesse surgir algum significado, mas o que resultou não foi nem espectacular nem elucidativo. O problema é a falta de acção dramática. No prefácio a um pequeno mas utilíssimo manual intitulado «Para trás e para a frente: um guia para a leitura de peças teatrais», de David Ball, conta-se que Sir Barry Jackson, do Birmingham Repertory Theatre, quando assistia a uma peça, procurava imaginá-la de volta ao papel. É um dos melhores métodos para apreender o sentido de uma peça. Que peça se imagina a partir deste espectáculo? Não se trata de uma peça, mas de um texto. Afinal é pós-teatro.

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4 thoughts on “Um portal para nenhures [BRUTO]

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  1. A última vez que reparei nisso o público era um diário generalista. E fazer crítica num diário generalista não é o mesmo que a fazer numa revista da especialidade. A publicação generalista deve obrigar o crítico a uma linguagem que permita o acesso dos “não-especialistas”. Ora bem, quando no mesmo parágrafo falas em classicismo, drama moderno, teatro pós-moderno e teatro pós dramático… para que tipo de leitores estás tua a falar. E ainda por cima num jeito jocoso, como quem desde logo reserva aquela coluna do jornal “só para amigos”.

    Eu acho que a crítica na imprensa generalista não deve afundar-se nesta divagação críptica. E se for preciso recorrer a alguns “palavrões” então é preciso explica-los e nunca pressupor que o leitor tem a obrigação de os conhecer.

    Para que a crítica seja um estímulo à reflexão da generalidade dos leitores e não uma piada trocada entre meia dúzia de colegas.

  2. Preferias então escrever sobre a programação do TeCA em vez de escrever crítica de teatro num diário generalista. É isso?
    Fala com os teus editores e pode ser que tenhas sorte. Mas não faz sentido privar os leitores da tal (necessária) crítica por causa disso.
    Digo eu, que gosto de dizer coisas.

  3. Não, não é isso, JM. A crítica num diário generalista não deve ser críptica, diz o Carlos. Eu pergunto se o TeCA é um teatro generalista onde os espectáculos não devam ser crípticos. Em todo o caso, o meu texto não era críptico. Se nós imaginamos que ele poderia criar embaraço num leitor não-especialista, isso foi de propósito. Estava a tentar demonstrar como precisamente este espectáculo se perdia em divagações crípticas. Por isso digo, depois de uma brincadeira com a autoridade do crítico e o olhar de uma espectadora, em que esta leva a melhor, que o espectáculo se perde num emaranhado de referências e citacões.

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