Na cara do espectador [ENSEMBLE]

A Dama do Mar, de Ibsen, pelo Ensemble
Porto, 18 de Maio de 2008 

“A Dama do Mar” é o epíteto que as gentes de uma pequena cidade costeira dão a Ellida (Emília Silvestre), segunda mulher do médico local, Dr. Wangel (Jorge Pinto), mas presa à lembrança de um marinheiro americano desaparecido (António Durães), a quem jurou amor. Ellida e Wangel tiveram um filho que morreu com poucos meses. Desde então o casal não tem relações maritais e Wangel receia pela saúde mental da esposa. O marinheiro regressa, como prometido, para vir buscá-la, e Ellida tem de escolher entre um e outro. As personagens resistem, por muito que sejam vencidas da vida, e as memórias irrompem no presente, como arquipélagos de origem vulcânica, motivando a acção. A magnitude dos nossos sonhos não cabe na pequenez da vida, e essa é uma das tensões-chave do drama ibseniano. Mas as paixões têm tanto de ideal como de material. Corpo, voz, memória têm de parecer frescos, para activar a nossa imaginação e a dos actores.

As figuras mais proeminentes do Ensemble Sociedade de Actores (Emília Silvestre e Jorge Pinto) entraram no imaginário nacional há muito, através do eco subliminar das vozes de desenhos animados de sábado de manhã (e outros horários). Nas últimas peças da companhia, dois Tcheckov, dois Beckett, este Ibsen (a peça faz 120 anos), as personagens são encaminhadas pelos dramaturgos, por entre fatalismo e crença, para o reconhecimento de que não há muito a fazer, a não ser talvez falar. Não se estranhe que o trabalho do Ensemble seja antes de mais uma experiência auditiva, assente no apuro da técnica vocal. As inflexões de voz pontuam os diferentes estados de espírito, as réplicas são dadas segundo as regras escritas da civilidade burguesa, e os actores colam gestos ao texto conforme parece que deve ser adequado à elocução. Mas o desassossego das personagens permanece insondável. É como se fizessem uma dobragem de si mesmos.

O antídoto é a cena final, jogada olhos nos olhos com o espectador, quando as figuras principais do drama são trazidas para a frente, sentadas em cadeiras banais, tiradas do corredor para a boca de cena, numa versão cool de reality show. As dobragens ficaram para trás, e estamos no aqui e agora. O tom enfatuado é substituído por um estilo mais simples e verdadeiro, no que é acompanhados pela luz, cenário e figurinos. É obra. A encenação traz Ibsen para os dias de hoje, superando, de caminho, toda e qualquer resistência causada pelo hábito hertziano de telenovelas e reality shows. Quando a acção assenta na realização mental das coisas, e não na elocução, funciona. Os actores logo conseguem evocar o universo espiritual das personagens fictícias e agir dando origem a esse sentimento trágico que vem de estarem irremediavelmente passadas, sem poder mudar o destino. O real cai em nós. A experiência das personagens passa a coincidir com a experiência dos presentes na sala. É uma autêntica sessão de terapia teatral, e é então que a personagem de Emília Silvestre pode escolher o marido. Fica-se a pensar como teria sido se, para lá das personagens e da importância que lhes damos, os actores jogassem mais quem são, desde o início, revelando o que está dentro do texto.

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One thought on “Na cara do espectador [ENSEMBLE]

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  1. Concordo plenamente com as ideias expostas. É nessa necessidade de ser visto defronte dos nosso olhos, cara a cara com a verdade da emoção do espectador, que tem faltado em muito do teatro actual, refugiado na distância, na espectacularidade dos cenários, das luzes e dos sons.
    Faz falta um teatro na cara do espectador, como os ingleses fizeram (e fazem) com o seu “In-Yer-Face Theatre”. Sem gestos recorrentes, sem faustosidade. Apenas um espaço vazio, o actor e o público, não em confronto, mas em diálogo, vinculados numa perene efemeridade. Paradoxal? “O ser humano é um paradoxo com duas pernas!” (Já dizia o saudoso Luís Pacheco). Abraço!

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