Um teatro de cidades imaginárias [FITEI]

 
 
Hamelin, de Juan Mayorga, pelos Artistas Unidos
Porto, 1 de Junho
Contos em Viagem – Cabo Verde, pelo Teatro Meridional
Porto, 4 de Junho
Ensaio, de Victor Hugo Pontes
Porto, 6 de Junho

Para o público cinéfilo, a encenação de Hamelin, com narrador e espaço vazio, fará lembrar as fábulas de Dogville e Manderlay, os filmes de Lars Von Trier inspirados em materiais brechtianos, alinhando Juan Mayorga e Jorge Silva Melo na fileira dos actuais discípulos do dramaturgo alemão. Nascido na Baviera mas mudando mais frequentemente de país do que de sapatos, muitas vezes Brecht localizou as suas histórias exemplares em lugares fictícios, mais verdadeiros que os reais, fazendo uso do poder de sugestão de actores desempenhado acções concretas em sítios utópicos.

É um teatro da contradição e da não-redundância, que trabalha para provocar o espectador e activar a imaginação, a partir do que acontece no aqui e agora e não só do que se representa ter acontecido alhures. Por isso, a apresentação dessas fábulas envolve efectivamente as plateias, e mais ainda se for ao vivo e feita como tal. Se esta actualidade do jogo teatral serve para ajudar a distinguir o teatro vivo do outro, então vários momentos do FITEI deste ano foram revigorantes. No primeiro fim-de-semana, para além da apresentação mais real que o real de Hamelin, a irredutível Luísa Cruz fez pouco de qualquer neurose remanescente no texto de Lars Noren, latinizando quanto pôde, e bem, os dilemas das personagens de A Ronda Nocturna. Afinal, trata-se de um festival de teatro de expressão ibérica.

De segunda a sexta, o FITEI foi na prática um festival de monólogos: Corpos Disidentes, Antonia San Juan, Carla Galvão, os Assédio, o Ensaio, 4.48 Psicose – todos estes espectáculos são feitos à base de solilóquios, uns mais ricos que outros. No fim-de-semana, para compensar, o FITEI regressou a Juan Mayorga, através das Últimas Palavras do Gorila Albino, novamente pelos Artistas Unidos, e encerrou com a Orestéia do Folias (que segue para as extensões do festival em Lisboa e Coimbra), isto para além de alguns espectáculos de rua, os mais festivos, certamente. Sobre estes não falarei, uns por não ter visto, o do Folias por ser eu próprio colaborador pontual da companhia paulistana. Já sobre os quase-monólogos, posso. E destes, aquele que mais desperta a imaginação ao mesmo tempo que deixa os espectadores pregados às cadeiras (mas sem pregar olho), é a invenção da lusofonia futura, pelo Meridional, na viagem a Cabo Verde.
Pregados é como quem diz, porque tanto a música como o corpo como as línguas de Contos em Viagem agitam e desassossegam as almas. Em todos os outros, porém, os corpos estão disciplinados e higienizados, trancados em limitações auto-impostas, constituindo encenações bem-comportadinhas, que não fazem uso (deliberadamente, bem sei) de toda a largura, comprimento e altura do palco, nem tão-pouco da duração da função, tendo como resultado mais a representação de textos do que a apresentação de acções ou o jogo de sugestão das palavras.

4.48 Psicose, do Nut Teatro, ainda faz uso disso como metáfora da condição de enclausuramento terminal da personagem única (e suas projecções), em looping discursivo sobre si mesma numa circunstância de consultório psiquiátrico de uma Londres imaginária. Mas acaba por ser a falsa conferência Ensaio, ao assumir a reprodução de textos (de Susan Sontag), o outro espectáculo que fica na retina, com a sua lenta profusão de imagens e o indízivel pressentimento de que somos cúmplices de vários crimes históricos. Ainda assim, a plateia parece arrefecida e solipsista. Fica-se a imaginar uma cidade, como aquelas de Brecht e Mayorga, em que haja mais interferências, mais confusão, mais gente em palco.

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