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Os Sobreviventes, de Manuel Poppe, encenação de Américo Rodrigues
Guarda, 25 de Junho

O título da nova peça de Manuel Poppe, Os Sobreviventes, parece servir como uma luva ao trabalho feito por esta estrutura de produção teatral, um colectivo de artistas de teatro originários da região, mas, tirando o próprio director do TMG, espalhados pelo país. Os trabalhos pretendem ser de cariz experimental, por um lado, e em grande parte de autores portugueses, por outro. Esta peça é o resultado disso.

No palco, numa casa com vista para o glaciar, dois antigos amantes recordam o passado comum e a queda, do alto da paixão, que ambos sofreram. Talvez por isso, de vez em quando, as personagens caiam mesmo, redondas, e outras vezes se atropelem uma à outra, sem mais nem porquê, e em função indirecta do que dizem. A força desmesurada da personagem feminina, Esmeralda, que faz Gabriel voar pelo palco com um simples empurrão (ambos mantendo a placidez do corpo, do rosto e da voz), revela que, apesar do confronto físico, essa violência é gráfica e imaginária, não real.

Do espectáculo faz também parte, a espaços, a projecção das indicações de cena que o autor deu às personagens, apresentadas como legendas para os movimentos dos actores: “Esmeralda olha para dentro de si”, por exemplo. É como se a encenação estivesse o tempo todo a tentar dizer “isto não é um casal a discutir”, forçando-nos a pensar nas reais intenções do autor, e acrescentando uma camada de significado extra à ficção teatral. A chave talvez seja a frase “Deus abandonou-nos” (não propriamente a descoberta da pólvora), também projectada, e o ameaço de looping final, com tudo começando de novo para as personagens, quais Sísifos ou Prometeus encerrados na própria natureza. Com certeza Deus não abandona casais em particular, mas a própria espécie humana, e a peça trata de todas as ferradelas de escorpião, próprias da natureza, contra as quais Deus nada fez.

É um espectáculo de formas externas à acção dramática propriamente dita, cujas palavras não se articulam com acções físicas, mas com um conjunto de gestos, movimentos, frases e imagens, por justaposição. Além da sequência de didascálicas projectadas, e dos confrontos físicos de causalidade inesperada, há o desenrolar do diálogo, claro, algumas frases ao microfone em que os actores dobram a voz e respiração das personagens, a projecção de imagens do casal enquanto jovem, e a banda sonora propriamente dita. Tudo isto em pistas paralelas, como se o espectáculo fosse uma vivissecção do caso amoroso, em busca das causas para a impossibilidade de amar. É uma pequena traição ao texto, mas o texto é uma pequena traição ao palco.

As personagens disputam as versões do passado para definir quem deu a primeira facadinha nas costas do outro. Mas as facas espetadas são tantas que já não se sabe a quem pertencem e algumas, decerto, foram lá parar pela mão de terceiros. “O amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura”, diz Vítor Espadinha numa canção dos Ornatos Violeta. A natureza, tal como Deus, não é cruel, não, é apenas indiferente. Mais vale tentar sobreviver-lhes.

[A crítica da crítica AQUI.]

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