A noite mal dormida de Macbeth [TMP]

 
Macbeth, de Shakespeare, pelo Teatro de Marionetas do Porto
Porto, 19 de Setembro

As palavras que Shakespeare pôs na boca das personagens desta peça, e a própria maldição em torno de um texto cujo título não se deve pronunciar, faz com que Macbeth esteja para a obra do bardo um pouco como os filmes das histórias de Edgar Allan Poe para o cinema. Cheia de vermelhos saturados e sombras que se parecem mexer, esta ficção bem se poderia chamar A Maldição da Casa de Macbeth, se tivesse sido feita uma adaptação pelos estúdios da Hammer.

Actualizando a leitura gótica da peça, nesta produção as marionetas trajam figurinos lembrando as cenas de Matrix e do primeiro Mad Max, e as figuras evocam desenhos de Bilal ou vinhetas da Marvel, mais do que um filme de Roger Corman. De igual modo, Macbeth não fala como um escocês antigo, mas como um tirano moderno, sinistro em trajes de cabedal.

A versão da peça é curta e enxuta, expondo com clareza toda a violência do enredo e retendo, da panóplia de imagens do texto, sobretudo as relativas às insónias do tirano e ao sonambulismo de Lady Macbeth. Estes vão aumentando com o bodycount, fazendo dos protagonistas autênticos mortos-vivos. A recorrência das referências às noites mal dormidas bate certo com um espectáculo contado como um pesadelo em que bonecos de madeira ganham vida, e sonhado como uma versão sci-fi de Macbeth.

Os escrúpulos de Macbeth cedem à ambição, alimentada pelas profecias das bruxas e pelos conselhos da esposa. Macbeth receia a profecia, porque ela fá-lo abdicar do seu carácter avisado e dar rédea solta ao lado assassino. Ao mesmo tempo, anseia a desculpabilização. O usurpador precisa de uma outra ordem do real, por trás da aparente, para justificar as suas acções, e as bruxas surgem como as grandes manipuladoras dessa invisível conspiração para favorecê-lo.

A profecia como expediente de predestinação permite a Macbeth agir como se a responsabilidade fosse alheia. Mas Macbeth sabe, no seu íntimo, que não passa de um usurpador, por um lado, e que está sendo usurpado, por outro, como uma marioneta inanimada precisa de quem o manipule. Tal como mata, e agindo assim se sente vivo, vê-se a si próprio já morto, a curtíssimo prazo, na companhia daqueles a quem tirou a vida. Quando as bruxas lhe dizem que só poderá ser morto por um homem que não tenha nascido do ventre de uma mulher, e que só será derrotado quando as árvores da floresta marcharem, o que, à primeira vista, parece impossível, Macbeth sossega um pouco. Mas um exército de madeira, chefiado por um ser artificial, ganhará vida e castigará aquele que se deixou fazer de fantoche. Simpatizamos com o assassino, primeiro, e ficamos aliviados com a sua morte, depois, porque queremos estar do lado de quem manipula, não de quem está inanimado. Nada como um espectáculo de marionetas para iluminar este lado da peça de Shakespeare. A sonâmbula Lady Macbeth, o fantasma de Banquo ou as árvores em marcha, encarnados por marionetas, dão bem a medida do horror de Macbeth. Já imaginou o que seria se todas aquelas marionetas, a mando das bruxas, se voltassem contra nós?

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