Na guerra e no amor vale tudo

  
Purificados, de Sarah Kane, encenação de Warlikowski
Porto, 5 de Dezembro

Se a inspiração para a escrita de Purificados veio de uma frase de Roland Barthes, segundo a qual estar apaixonado é como estar em Auschwitz, nada como uma companhia de teatro da Polónia para levar a metáfora às últimas consequências. (Auschwitz e Birkenau são os nomes alemães das localidades polacas de Oswiecim e Brzezinka, situadas a cerca de 60 quilómetros de Cracóvia.) Não é que coitas de amor possam ser equiparadas ao sofrimento de deportações, torturas e assassinatos. É que essa violência ocupa um lugar nuclear no nosso imaginário e é a ela que recorremos para dar realidade às fantasias amorosas. Sarah Kane tinha já feito um tropo semelhante em Ruínas, ao juntar a violência doméstica com a guerra civil e étnica dos Balcãs. Por um lado, a representação da violência, hiperbólica, ajuda a entender como os apaixonados terminais trazem o coração oprimido; por outro, todo o sangue de graphic novel que aqui se espirra é como um grito de alerta, um reflexo condicionado da impotência do amador perante os caprichos da coisa amada. Sarah Kane parece ter levado muito à letra a noção de que os rapazes, quando apaixonados, dão caneladas e fogem. Esta versão, estreada em 2001, e que desde então tem corrido a Europa como embaixadora do teatro polaco, é uma alegoria sobre a mutilação do desejo homossexual, figurada principalmente pela troca de roupa e pela amputação de membros, que ecoa a violência dos campos de concentração.

O melhor desta encenação são os actores, pela clareza com que encarnam as personagens e vivem as situações, cena a cena, fala a fala, tornando credível a ficção – o que não é nada fácil, num texto assente na sucessão dos picos dramáticos, muitas vezes obscuro, e que não perde tempo a preparar os conflitos. As cenas mais cruas são mais consentâneas com a acção da peça, enquanto os interlúdios musicais, o vídeo e os banhos de luz, a puxar para o bonito, se tornam enjoativos, passado um bocado – pelo menos para mim. Mas o que mais impressiona é o vocabulário cénico de representações da violência que foi desenvolvido. Este é, para os encenadores, um dos problemas mais estimulantes do texto: como representar a amputação de membros fazendo, mais que uma ilustração correcta do ponto de vista anatómico, uma representação do horror do sacrifício amoroso? O catálogo proposto por Warlikowski é simultaneamente belo e horroroso, apostando no poder de sugestão dos gestos, diferidos, desdobrados, desenhados, para que se reconstitua, no pensamento do espectador, a violência retratada.

“Transforma-se o amador na coisa amada” é um verso de Petrarca, glosado por Camões, e reutilizado por Herberto Helder, que lhe acrescenta, entre outros, “o amador é um martelo que esmaga”. Apesar da violência que exerce sobre os demais, Tinker é movido por um amor que nos faz compreender os seus exageros e que, no final, o salva. Ao fim e ao cabo, veio imolando-se a si próprio. Talvez um grande amor, para ser real, precise de uma grande mutilação.

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