O país é Lisboa, o resto é deserto [PALMILHA]

A cidade dos que partem, pelo Teatro da Palmilha Dentada
Porto, 3 de Fevereiro

O novo espectáculo da Palmilha Dentada conta a história de Carlos Anunciação, um aldeão que deixa para trás o país interior, feito de bombos e caretos, e parte para a cidade grande, onde o vemos a trabalhar na oficina de um tio e, nos tempos livres, a tocar trompete numa banda de garagem. Em paralelo, um presidente da câmara (que é uma amálgama de Avelino Ferreira Torres, Rui Rio, Fátima Felgueiras, Narciso Miranda, e mais que houvesse) inaugura uma Máquina da Felicidade que se revela uma fraude. Parece que todas as tentativas de encontrar a alegria são frustradas pela irresponsabilidade geral; ao menos, na aldeia, o rufar dos tambores e as máscaras davam algumas garantias.

Estes fios condutores guiam o espectador através dos vários quadros e números musicais que compõem o espectáculo. Há outras figuras para além do aldeão e do presidente, mostradas em pequenos episódios, que acabam por se cruzar umas com as outras, nas ruas do burgo. Tudo corre mal e no fim, desiludidas, algumas das personagens fazem como Anunciação fizera outrora e partem também, para um lugar supostamente melhor.

Ao definhamento dos campos e montes corresponde um definhamento do casco urbano, ora cantado, ora mostrado em cenas cómicas. Trata-se de um espectáculo musical, ainda que mais próximo da revista do que dos formatos celebrizados por Hollywood, a Broadway ou o West End. Cada canção é de sua nação, mas os espectáculos da Palmilha Dentada são famosos é pela fragmentação desopilante, não pela unidade. A quantidade de histórias a contar e a necessidade de condensá-las em duas horas não facilitam: ficaram por desenvolver quer a trajectória das personagens centrais, quer a profusão de vinhetas da vida citadina.

As melhores cenas são as de sentido de humor absurdo, surpreendente e certeiro, sempre um passo à frente do público, em que estes artistas são especialistas. As tiradas mais sérias, porém, perdem o lanço, e não são nem melodrama, nem paródia de melodrama. Apesar destes reparos, o espectador vai encontrar cenas delirantes e tiradas cómicas de antologia, e um reconhecimento imediato dos temas aqui tratados. Do que gostei mais foi do número do TecnoVocalWarmUp, mas há para todos os gostos.

Com a tarimba do café-teatro, a trupe faz composições precisas e frescas, criando caricaturas reconhecíveis, facilmente odiosas não fosse o carinho com que lhes dão vida. Anabela Nóbrega, Daniel Pinto, Ivo Bastos, Joana Carvalho, Nuno Preto, Patrícia Queirós, Paulo Calatré e Rodrigo Santos são intérpretes que se transformam nos bonecos que querem, e com uma tal cumplicidade entre si e capacidade de escuta que fazem a cena real. Os figurinos, adereços e cenário são ricos e evocativos, muito bem feitos, e as projecções da cidade e do campo, alternando com o cenário branco da garagem, resolvem bem o problema de reconstituir tantos espaços diferentes sem perder o tempo todo com mudanças de cena.

O espectáculo lavra no mesmo material que nos deu, por exemplo, Aldeia da Roupa Branca (a festa na aldeia, a banda filarmónica, a vida na cidade) mas acrescenta-lhe alguns dados incontornáveis das últimas décadas: a desertificação do interior, do centro das cidades e, no futuro, do país.

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One thought on “O país é Lisboa, o resto é deserto [PALMILHA]

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  1. bom, já percebi porque é que a Sara me disse que talvez naõ valesse a pena eu ir:)

    Ia dizer que gostei mais do “Espantalho Teso”, dum gajo muito bom, chamado Jorge Louraço.

    beijinhos

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