Viver e morrer em São Paulo

Cidade Desmanche, do Teatro de Narradores
22 de Abril de 2010 (V Mostra Latino Americana de Teatro de Grupo)

No final de Cidade Desmanche, quando os actores se iam juntando na rua e o público os via do terraço do Maquinaria, um carro da polícia parou, a certa distância, o policial saiu, para ver o que havia, logo desistindo e avançando sem mais assunto. A aparição súbita da polícia podia ser apenas mais um elemento de gramática teatral. Mas veio do real, não do enredo, ecoando histórias de disputa das ruas enquanto espaço de manifestação livre. Este tipo de interferência aleatória na cena é um dos aspectos principais desta montagem. O espectáculo do Narradores tem como pano de fundo São Paulo e como figurantes os seus moradores. A cada cena se acrescentam fragmentos da vida na cidade, vistos das várias divisões por onde o público é levado. Os espectadores acompanham o enredo como se estivessem dentro de um set de filmagem. Melhor, como se estivessem dentro de uma actuação teatral que está dentro da vida real, ao contrário da mera ficção cinematográfica.

A vitalidade desta actuação vem do cruzamento de diálogos, canções e demais recursos teatrais com o quotidiano imediato da cidade. Os elementos básicos para a construção do espectáculo são a própria condição destes actores, a rua onde estão, as pessoas com quem vivem, e as histórias que há para contar – histórias de desmanche, claro. Os botecos, as varandas iluminadas e as antenas da avenida Paulista são o ponto de fuga das personagens, colocando à escala de um para um a megalópole, enquadrando os gestos íntimos na esfera pública. A articulação da escala da intimidade com a escala política é feita pela quebra do anonimato de cada espectador, que no início é convidado a dançar, e pela relação permanente com a paisagem urbana. O espectáculo inscreve-se no espaço conflagrado da rua 13 de Maio através de outra maneira: a projecção de cenas nas paredes dos edifícios vizinhos.

Deixa de ser apropriado chamar a este trabalho um espectáculo, porque ele se assume simultaneamente como intervenção pública e experiência pessoal, deixando para trás a relação passiva com o teatro que boa parte do público gosta de manter. A forma como as cenas repercutem pelo edifício, rua e paisagem da Bela Vista, e o modo como são infiltradas por fragmentos espontâneos do real, tudo isto composto com arte, permite aos Narradores superar a concorrência do cinema e da TV no retrato da cidade nua e crua e ganhar à sociedade do espectáculo no seu próprio terreno.

[foto de Tainá Azeredo]

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: