Declaração Universal dos Direitos do Autómato

Livres e Iguais, da companhia Teatro Sim… Porque Não?
São Paulo, 24 de Abril de 2010 
(V Mostra Latino Americana de Teatro de Grupo)

Este espectáculo de formas animadas é uma colecção de vinhetas sobre a discriminação em geral, criada com bonecos que se assemelham a robôs. Não aqueles robôs acabadinhos de sair da fábrica, mas os que são feitos de refugo industrial, pernas sobresselentes e braços encontrados em ferros-velhos. Com a destreza sempre invejável dos manipuladores, a companhia reproduz os vícios e virtudes da humanidade numa fábula passada não no tempo em que os animais falavam, mas no tempo em que os andróides terão sonhos e os autómatos senso e sensibilidade. O domínio das técnicas de manipulação maravilha. A atribuição de sentimentos a alguns dos objectos mais inanimados do universo (peças de máquinas feitas a partir de seres minerais) é feita com maestria. Ao mesmo tempo, leva-nos para um universo mágico, com uma Física própria, onde as leis da gravidade permitem, por encanto, que as marionetas voem.

A metáfora visual deste Livres e iguais revela os próprios seres humanos, como é claro. O uso das marionetas permite encenar várias situações de violência com uma crueldade e contundência que talvez não fossem tão convincentes representada por actores. Ao mostrar um mundo de bonecos feitos de escórias de aço, a Grupo Teatro Sim… Por Que Não?!!! mostra-nos ao espelho, revelando o nosso parentesco com o metal.

A sensibilidade com que estes actores-manipuladores fazem o espectáculo é prova suficiente que há esperança na defesa dos direitos humanos, ou dos andróides, nalgum ponto da galáxia. A única Declaração Universal dos Direitos do Robô que se conhece, na verdade, é a de Isaac Asimov (no livro de ficção científica I, robot). São apenas três leis: primeira – um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal; segunda – um robô deve obedecer as ordens q ue lhe sejam dadas por seres humanos, excepto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei; terceira – um robô deve proteger sua própria existência desde que tal protecção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis. Simples. Nada se diz, porém, sobre a discriminação e exclusão de robôs exercida por outros robôs, que este espectáculo mostra. A organização não-governamental Robot Rights Watch investiga casos em toda a América-Latina e publica relatórios assustadores todos os meses. Em Portugal, no ano de 2009, duplicou o número de casos oficiais de violência robótica. Há muito caminho a percorrer até que os robôs vivam num mundo de liberdade, igualdade e fraternidade. Com os homens – e as mulheres e as crianças – é a mesma coisa.

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