Os sonhos espremidos até ao osso [XXVII Festival de Teatro de Almada]

Todos os grandes governos evitaram o teatro íntimo, de Daniel Veronese, a partir de Ibsen
Almada, 6 de Julho
Dança da Morte, de Ana Zamora, a partir de textos dos séculos XIV-XVI
Lisboa, 11 de Julho

A versão de Hedda Gabler apresentada por Daniel Veronese no Festival de Almada (intitulada «Todos os grandes governos evitaram o teatro íntimo») é fulgurante. Os actores reconstituem um sentido de urgência que o realismo de Ibsen tem no original, mas que os nossos hábitos de consumo de narrativa audiovisual já não nos permitem apreciar tão bem. Pelo contrário, a versão enxuta dos conflitos feita pelos argentinos puxa-nos para dentro da acção como se imagina que Ibsen queria. Não há tempo a perder com entradas pela direita e saídas pela esquerda. Os actores assumem tanto as acções das personagens, como várias indicações de cena, rompendo o véu ficcional bastas vezes, e chamando assim a atenção para o facto de estarmos perante um acto voluntário. Gabler é não só a personagem que tenta dominar, como a figura que comanda a actuação.

O próprio título do espectáculo podia ser uma frase tirada de um manifesto denunciando a operação de propaganda por trás do teatro de grande efeitos visuais e sonoros desenhados para as massas, e a favor de espectáculos que não sejam apenas mais uma manobra de diversão. Ao mesmo tempo, esta peça é uma espécie de objecto ready-made, porque os actores e as personagens parecem ter estado sempre nos mesmos corpos, apenas à espera de serem expostos exactamente neste palco.

Na adaptação, o encenador argentino colocou as personagens a viver temporariamente num velho teatro, dormindo e comendo num cenário usado, enquanto a casa própria não fica pronta. Ficção ibseniana e actuação ibero-americana cruzam-se nesta hora e meia de teatro, apresentando o mito de Gabler em roupagens contemporâneas. A peça mostra-se como um argumento sobre alguns aspectos particulares da condição humana, assumindo como função do teatro o debate vivo dos temas mais complexos.

Ana Zamora, a encenadora de «Dança da Morte», põe em linha o nosso tempo com o tempo antigo, tocando no próprio osso da memória para nos maravilhar com um teatro familiar e distante ao mesmo tempo. Palavras da tradição ibérica dos séculos XIV a XVI, que pareceriam fósseis aos olhos mais negligentes, surgem absolutamente revitalizadas nesta encenação, graças à suavidade com que uns textos se fundem nos outros. O jogo dos actores, impecável mas descontraído, desmonta qualquer ameaça associável à erudição.

O espectáculo ganha um outro encanto por se tratar de uma síntese singela e feliz do legado de Luís Miguel Cintra na interpretação de textos ibéricos dos últimos quinhentos anos (ou mais). [No dia em que este vosso crítico assistiu à Dança da Morte, o actor e director da Cornucópia dirigiu uma parte do texto a outra grande actriz vicentina dos nossos tempos, Maria do Céu Guerra, por coincidência presente na plateia.] A actuação ressoou não apenas com a história da cultura e a filologia ibéricas, e nem apenas com as tradições populares, mas com a história do teatro e dos seus artistas[, num momento de ocaso, ou pelo menos mudança, da função das artes teatrais em Portugal].

Esta Dança da Morte figura o encontro macabro e a última saída de cena como um juízo final, mas vê-la é sobretudo um consolo para quem vive se aguentar de cabeça erguida. Por isso o espectáculo é tão alegre – diz-nos como se pode olhar a morte cara a cara e, pelo menos na Ibéria, mesmo assim mostrar-lhe os dentes.

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