Se esta praça fosse minha [FIMP]

Ópera dos Cinco Euros, de Regina Guimarães, encenação de Igor Gandra
Porto, 17 de Setembro
Morning Sun, de e com Márcia Lança e João Calixto
Porto, 19 de Setembro

A Ópera dos 5 € é construída a partir de cenas de rua e discursos públicos relativos à imigração para a Europa. O espectáculo é uma sequência de quadros com imigrantes, daqueles facilmente observáveis em qualquer praça da Europa, musicados a partir de um texto original que comenta as situações. Sim, a Ópera dos Três Vinténs, de Brecht e Weill, e Trans-Europe-Express, dos Kraftwerk, também lá estão enfiados, mas o mais importante é a representação artística de alguns estilhaços da vida pública dos imigrantes. Dir-se-ia que os autores foram estimulados pela ligação entre a capacidade de sobrevivência dos clandestinos, a sua exuberante criatividade, mormente na manipulação de objectos para  venda, e a própria identidade e lugar do criador teatral hoje em dia.

O espectáculo foi pensado para ser apresentado ao ar livre. A fulgurância dos corpos e figurinos e o mero volume de som couberam mal no mosteiro, que parecia pedir outra coisa. O trabalho é uma tentativa de reproduzir a riqueza do mundo trans- e pós-colonial, como busca de novas formas. Pelo menos isso parece justificar a iconoclastia geral do projecto, que vai de mão dada com o experimentalismo. Em co-produção com o Teatro do Frio e o Radar 360, este trabalho é um laboratório que ainda dará melhores frutos, espera-se, mas que revela desde já uma bem-vinda irreverência artística. Os adjectivos que pudesse usar para caracterizar as falas de Regina Guimarães ficariam sempre aquém do maravilhamento e reflexão que provocam, ainda mais por trazerem para a cena vocabulário que está fora dos dicionários.

Morning Sun é um dueto de João Calixto e Márcia Lança, dos quais o FIMP mostrou As Pequenas Cerimónias (de Calixto com Tiago Viegas) e Dos Joelhos Para Baixo (de Lança). O espectáculo descende mais directamente desta última peça, um solo onde a arte parece estar em fazer um espectáculo com pouco mais do que uma resma de papel A4. A artista vai montando uma cidadezinha com casas de papel, habitada por figuras humanas, recortadas na hora, que passam por paixões, assaltos e afogamentos, mas que, atenção, recuperam. No caso de Morning Sun, tudo é feito com madeira, e desta vez à escala de um para um: desde duas cadeiras e uma mesa a um ser vivo feito de ripas, montados na hora. A habilidade com que se constroem objectos que ganham vida e/ou sentido faz desta criação um espectáculo de perícia e de sensibilidade, inovando na maneira de contar as mesmas histórias de sempre (neste caso, a de um casal).

Estes espectáculos fazem uma tangente à ficção dramática, apresentando situações e personagens muito fragmentariamente. Pequenas Cerimónias, um conjunto de vinhetas passado numa taberna, é o que mais se aproxima de uma história que se desenrola perante os nossos olhos. Mas a ilusão é relativa, dado que vemos os manipuladores. De facto, boa parte do espectáculo é o acto de produção da cena, dos objectos à música. Estes teatro é uma continuação da oficina por outros meios, não um conjunto de efeitos especiais. Tendo em conta os temas imediatos (a praça da imigração e o interior da carpintaria), só podia ser assim.

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