A névoa de sarcasmo


Sombras, de Ricardo Pais
Porto, 27 de Novembro [três estrelas – bom]

Sombras é um espectáculo para todos, pensado em resposta ao desafio de mostrar no Brasil a massa de que são feitos os portugueses. Para alcançar esse objectivo, o encenador propôs-se elaborar uma sequência de cenas de textos fundamentais da nossa literatura teatral (e não só), cruzada com fados e fandangos, que desse a conhecer o melhor da alma portuguesa e, ao mesmo tempo, o melhor de Ricardo Pais. Esta era uma ideia mais antiga, que a disponibilidade de registos vídeo tornava interessante. Não há como apresentar uma mitologia nacional sem concretizar fantasias pessoais, é óbvio. As sombras que o título lembra não são apenas as relativas a personagens emblemáticas do imaginário e da literatura dramática nacional, mas também das versões que essas personagens conheceram às mãos de actores dirigidos por Ricardo Pais. Neste espectáculo, essas figuras da mitologia portuguesa (a Castro, Frei Luís de Sousa, o próprio Pessoa, entre outros) aparecem nas imagens de Fabio Iaquone, escolhidas a dedo, ou são reeditados pelos actores. A mitologia pessoal do encenador dá corpo aos mitos nacionais. Se Turismo Infinito – a anterior encenação de Ricardo Pais – acontecia dentro da cabeça de Fernando Pessoa, este espectáculo passa-se dentro de um sonho do encenador.

De facto, o espectáculo é melhor apreciado pelos iniciados na obra de Ricardo Pais. Tem mais gozo quem identifica a proveniência das citações de espectáculos anteriores e aprecia a mestria do encenador em refazer cenas, do que quem vai ao acaso. Algumas das cenas são mais vivas aqui do que em versões anteriores e, para quem nunca as viu, uma boa maneira de ficar com curiosidade sobre os originais. A ideia é muito boa; actores, cantores, músicos e bailarinos estão impecáveis; o trabalho de Mário Laginha e de Paulo Ribeiro é de primeira água. O todo, porém, não assombra. Esta digressão pelo imaginário nacional não se apresenta com um sentido imediato que pudesse fazer do espectáculo uma provocação irresistível, o que, pelo menos para este crítico, seria preciso. Fabricado como um ritual para que o dia nasça e das sombras saia um vulto português, Sombras não encontra mais do que fantasmas e nevoeiro. A mitologia pessoal está primeiro. A busca da identidade portuguesa tem menos sucesso do que a busca da identidade ricardopaisiana. E, no entanto, quase alcança essa concretização. Estas versões são mais carnais do que o habitual, e a paixão amorosa ganha corpo de modo menos sublimado. Ainda assim, é um espectáculo onde o facto teatral depende demasiado da prática verbal – demasiado porque, neste caso em particular, essa prática dá uma falsa importância às coisas e às pessoas que é fatal para o envolvimento do espectador. No cenário que evoca uma espécie de cais, que também podia ser uma série de jangadas, o que encontramos no final não são corpos naufragados, mas versos, palavras e imagens diáfanas. Pontuando tudo isto, as notas de auto-ironia que garantem a sanidade dos nacionais. O sarcasmo de Ricardo Pais vem ao de cima na dupla de compères interpretada por Pedro Frias e Pedro Almendra, que trazem o brilho do music-hall para a sala, e parecem rir da crença na vinda de um messias. Talvez seja essa a única possibilidade de ritual sobre o caso português.

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