Genet, revelação a preto e prata

Num ano, a colecção Livrinhos de Teatro, dos Artistas Unidos, publicou todo o teatro do francês Jean Genet (1910-1986), escritor, dramaturgo, revolucionário. Esta semana, o Teatro da Cornucópia estreia «Ela», obra que o autor deixou para ser editada postumamente. Em Novembro será a vez de uma nova encenação de A Varanda, também pela Cornucópia. Vinte cinco anos após a morte, Genet volta às tábuas portuguesas.

São Genet

A primeira vez que se viu uma peça de Genet em Portugal foi no Estrela Hall, em Lisboa, numa «récita privada» (para escapar à censura) com direcção de Sinde Filipe, feita pelo mesmo grupo de teatro de Alain Oulman. O texto era Alta Vigilância, em tradução de Bernardo Santareno. A estreia profissional de uma obra do escritor francês, no entanto, foi com a montagem de As Criadas, em 1972, no Teatro Experimental de Cascais (TEC), sob a direcção de Victor Garcia. O encenador argentino tinha trabalhado no CITAC, em Coimbra, e vinha de uma produção monumental, em São Paulo, no Teatro Ruth Escobar, de A Varanda (intitulada O Balcão), uma encenação que se tornou lendária na história do teatro do séc. XX. As Criadas foi um espectáculo muito marcante tanto para Luís Miguel Cintra, o director da Cornucópia, como para Jorge Silva Melo, dos Artistas Unidos, que foram apresentados à poética de Genet pelas mãos de Victor Garcia. Para Jorge Silva Melo, que viu quatro vezes a versão original em Madrid, um ano antes, com Nuria Espert na interpretação, e umas dez vezes a montagem de Cascais, tratava-se de uma encenação genial, que libertava o Genet dos aspectos mais convencionais do teatro francês. Em Cascais, As Criadas teve como intérpretes Eunice Muñoz, Glícina Quartin e Lourdes Norberto, e como assistentes de encenação Filipe la Féria e a mesma Nuria Espert da versão espanhola.

Na época, Genet era fundamental, «toda a gente tinha de ler», diz Silva Melo. A reputação do francês tinha sido estabelecida graças ao primeiro volume das obras completas de Sartre, o ensaio Saint Genet, Comédien et Martyr, de 1952. Entre 1946 e 1955, com uma paragem pelo meio para respirar fundo depois do ensaio hagiográfico de Sartre, Jean Genet escreveu as suas peças mais importantes, três textos fundamentais do repertório teatral moderno: Les Bonnes (publicada em 1947), Le Balcon (1956) e Les Nègres (1958). As peças foram estreadas por autênticos monstros da encenação contemporânea, entre os quais Louis Jouvet, Peter Zadeck, Peter Brook e Roger Blin. Órfão, delinquente, desertor, a obra e a biografia de Genet confundiam-se na imagem do escritor maldito.

Em Portugal, porém, seria preciso esperar até 1986 para uma outra estreia, desta feita Os Negros, com encenação de Rogério de Carvalho, que viria ainda a encenar Quatro Horas em Chatila (um relato do massacre naquela cidade do Líbano), em 1997, no Porto, com As Boas Raparigas. (O mesmo encenador voltará a ambos os espectáculos em 2006: Os Negros no TNSJ, uma produção que levou um minúsculo grupo de neo-nazis a ensaiar uma rarefeita manifestação em plena Praça da Batalha, e Quatro Horas… no Estúdio Zero.) Em 1987 é finalmente a vez de O Balcão, com Lia Gama, pelo TEC, grupo que durante os anos seguintes assegurará a tradução e a estreia de boa parte dos textos dramáticos de Genet (Alta Vigilância e Os Biombos em 1993, Os Negros em 1999), sempre com a encenação de Carlos Avillez.

Genet foi lido e editado em Portugal, mas pouco, pelo menos no que diz respeito ao teatro. A Editorial Presença publicou logo em 1972 a tradução de Luiza Neto Jorge usada na encenação de Garcia e pouco depois, em 1976, saía uma tradução de A Varanda, de Armando Silva Carvalho (que apenas seria levada à cena em 1987). Silva Melo recorda-se bem de ter acompanhado a tradução de Luiza Neto Jorge, difícil de fazer, diz, devido ao francês barroco herdado tanto de Claudel como de Rimbaud. Desde meados de 2010 que os Artistas Unidos e a Cotovia têm vindo a editar praticamente a totalidade do teatro de Genet, em cinco volumes da colecção Livrinhos de Teatro: As Criadas (1947), com a tradução de Luiza Neto Jorge, de 1972, e Alta Vigilância (1949), em tradução nova de Jorge Silva Melo, directamente da versão mais recente da peça; A Varanda (1956, 1968), na tradução de Armando Silva Carvalho; Os Negros (1957), pelo mesmo tradutor; Os Biombos (1961), por Teresa Reimão Pinto; e «Ela» (1989) e Splendid’s (1993), traduzidas por Luís Miguel Cintra.

O que é que ela tem?

«Ela» e A Varanda, os dois espectáculos do Teatro da Cornucópia deste segundo semestre, foram escritos quase ao mesmo tempo, e pertencem a um mesmo sistema dramatúrgico, o do retrato e revelação das imagens ocas do poder. Quem é Ela? Sua Santidade, o Papa. Enquanto n’ A Varanda se apresenta uma galeria de figuras notáveis, do Bispo ao General, passando pelo Juiz e pela Rainha, Sua Santidade é «uma amálgama de todas as personagens da peça-matriz», como escreveram Michel Corvin e Albert Dichy, no prefácio à edição do Teatro Completo de Genet, da Gallimard. A peça mostra uma sessão de fotografia oficial do Papa, para a impressão de quinze milhões de retratos. O fotógrafo espera que o Santo Padre tenha uma postura própria. O Papa, porém, é radicalmente insubmisso, fazendo questão de não se deixar domesticar pela imagem que os outros têm de si. Como diz a personagem, no texto: «Eu danço o Papa.» Na pior das hipóteses, o fotógrafo tornar-se-á cúmplice dessa hipocrisia institucional que sustenta o poder. Na melhor, o Papa será salvo pela sua autenticidade, provada na resistência à imagem.

Luís Miguel Cintra deixa claro que este espectáculo não diz respeito à igreja, mas a toda a gente. A peça poderá chocar, pelo facto de o actor surgir trajado a rigor, interpretando um Papa feito das memórias que possui de imagens de Pio XII, João Paulo II, etc. Mas o alvo do autor não é a religião, e sim os processos de cristalização de imagens que, de tão definitivas, acabam por ser artificiais, comum a todos os espectáculos do poder, e do qual o Papa é um dos melhores exemplos. Em contraponto a essas imagens definitivas, Genet, e Luís Miguel Cintra, apresentam um papa jocoso, carnal, que dança e faz caretas ao espelho, com o vigor e a graça redobrados do actor da Cornucópia.

O encenador levanta a hipótese de a figura do Papa ser afinal uma metáfora do próprio Genet, e da sua resistência ao retrato que dele tirou Sartre, em 1952. A saída existencial do autor é feita através do esplendor feérico da teatralidade, combinado com a aguçada lucidez da linguagem. Para Luís Miguel Cintra, essa lucidez não podia ser mais pertinente, perante a voragem das imagens que circulam quotidianamente. Esta encenação é uma reflexão implacável dos processos de construção da imagem de si, que lança uma luz crua sobre os modos como nos deixamos matar pela autoridade dos ícones do poder religioso, político e cultural. Genet fez um retrato fascinante dos processos de reprodução em massa da imagem individual, e das implicações disso em termos pessoais e colectivos, que é perene e continuará actual por muito tempo. A publicação da sua obra e a montagem destes textos só pecarão por tardias.

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