Teatros de estilo colonial

 
 
FITEI 2011
El Gallo, encenação de Claudio Valdés Kuri
Porto, 3 de Junho de 2011 [cinco estrelas]
Policarpo Quaresma, encenação de Antunes Filho
São Paulo, 18 de Abril de 2010 [quatro estrelas]
Lamartine Babo, encenação de Emerson Danesi
Porto, 11 de Junho de 2010 [quatro estrelas]

 

Policarpo Quaresma e Lamartine Babo, do Brasil, e El Gallo, do México, destacaram-se na edição deste ano do FITEI pelo rigor conceptual e vivacidade de formas com que foram construídos, deixando neste crítico a esperança num teatro simultaneamente apelativo, na forma exterior, e erudito, nos caracteres que o constituem.

O Centro de Pesquisa Teatral (do SESC São Paulo), dirigido por Antunes Filho, apresentou dois espectáculos, que revelam um olhar sobre o respectivo país, e uma parte do teatro que se produz lá. Lamartine Babo é um espectáculo musical, evocativo do compositor, assente numa situação dramática simples, mas eficaz: durante um ensaio, uma banda que só toca temas de Lamartine é visitada por um vizinho que acaba por revelar estar na posse de várias canções inéditas, supostamente psicografadas. Em Policarpo Quaresma, Antunes constrói um espectáculo que também se pretende popular: em primeiro lugar, conta, ao nível mais imediato, uma fábula quixotesca passada na cidade maravilhosa, repleta de sobrados em «estilo colonial», sobre um nacionalista tão apaixonado pela nação brasileira que chega a pensar falar apenas em tupi; em segundo, mantém o espectador atento com a música e as cenas de grupo; em terceiro, faz Lee Taylor, o actor que interpreta o protagonista, desenhar com profundidade um sonhador derrotado; em quarto, consegue dialogar com a vox populi e o imaginário do Brasil de hoje. Talvez essa contingência o apouque aos olhos dos portugueses. Porém, a familiaridade destas figuras devia ser grande. Lamartine Babo e Policarpo Quaresma são personagens do tempo em que a maioria dos brasileiros ainda usava a segunda pessoa do singular nas formas de tratamento. Por outro lado, as marchinhas de carnaval de Lamartine são sobejamente conhecidas do público português, e as paradas e revoltas republicanas de Policarpo não são assim tão estranhas, antes pelo contrário. Os espectáculos revelam alguns dos elos perdidos entre as duas culturas nacionais, ou pelo menos entre a cultura do Rio de Janeiro e Portugal.

El Gallo foi uma das peças teatrais mais impressionantes deste e de outros festivais. Trata-se de uma «ópera para actores» que faz o retrato musical de um método criativo. O espectáculo é um processo de ensaios fingido, que começa com a audição dos intérpretes (sempre numa língua inventada), apresenta toda a luta de galos que decorre durante os ensaios e culmina na suposta estreia apresentação final, nos últimos minutos do espectáculo. Quase no fim, os actores retiram-se, para voltar passado um pouco e só então apresentar aquilo que seria a récita que andaram a ensaiar à nossa frente. O espectáculo destaca-se pela entrega dos actores às personagens e pelo talento multifacetado que revelam, cantando, interpretando e fingindo como se fosse a última coisa que fizessem na vida. A música, até onde este crítico pode avaliar, é excelente. A mise-en-scène rigorosa e provocadora. Tanto a carnalidade como a espiritualidade, se é que ainda podemos pensar em separar as duas coisas, são matéria de composição sofisticada e rica de sensações, emoções, sentimentos.

Que mais? A edição deste ano do FITEI abrigou grupos de teatro recém-formados, num ciclo chamado Vão de Escada. Um dos mais cativantes foi Pira Te, da Erva Daninha, um misto de ficção teatral, música ao vivo e malabarismo visceral que conta a jornada de um mochileiro pela mata nacional, cruzando linhas de comboio e espantalhos mal-assombrados. Se fossem representar Portugal ao México ou ao Brasil, não faríamos má figura.

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