Crítica entre irmãos

 
Não Gosto (Quatro Conferências)
Não gosto dos críticos, não gosto, por Jorge Silva Melo
Lisboa, 26 de Setembro
 
O Jorge tinha avisado: não gosta de críticos. Também não os odeia. Escreveu críticas, no seu tempo. Não desdenha voltar a escrever. Talvez faça isso no Teatro da Politécnica. Se calhar até gosta de alguns. Michael Billington, por exemplo. O próprio Vasco Câmara, cujo título num ípsilon sobre o premiado filme de Steve McQueen (‘artista plástico já é cineasta’) deu o mote inicial, por revelar a tentação da crítica em agir como mestre-escola, passando certificados de habilitação aos artistas e certificados de incompetência ao espectador. Não disse de quem não gostava, o Jorge. Enfim, gosta dos críticos como se fossem irmãos. Caim gostava de Abel.  E por isso Jorge Silva Melo fez na segunda-feira, na Culturgest, na primeira de quatro conferências sobre o que o desgosta no teatro nacional, um apelo à crítica fraterna, mas violenta; à crítica injusta, porque não se trata de nenhum tribunal; à crítica parcial e apaixonada como só os irmãos sabem ser, e, se possível, com polémicas públicas de proporções bíblicas. Tal qual as melhores personagens de teatro, uma coisa é o que pensa, outra é o que diz e uma terceira o que faz Jorge Silva Melo, actor e autor, director dos Artistas Unidos. É dialéctica.
 
 

Que os críticos sejam eunucos, como lhes chamou Noel Coward, foi o mais perto que se chegou de um insulto. E assim se goraram as expectativas de um duelo ao alvorecer, quais Ramalhos Ortigões e Anteros de Quentais, em que os tiros ou as espadas se desviassem mutuamente na neblina matinal. E por isso o fim de tarde foi passando, brando e suave, com as pessoas perorando sobre os males do teatro em Portugal, que alguns insistem estar a passar por uma boa fase. Não eu, que sou do contra. Às oito e pico estava toda a gente cá fora. O primeiro round tinha chegado ao fim com um empate. Para a semana há mais.

Porque têm os críticos de ser eunucos, sempre à procura de uma odalisca para denunciar? Porque não podem ser mais como o sultão, ou califas no lugar do califa, ou, vá lá, odaliscas? Porque é que os críticos de teatro não podem ser mais como os críticos de poesia, que também são poetas, pelo menos a maior parte, perguntou o mestre? Eu, este vosso crítico e dramaturgo, que tenho peças ora publicadas ora encenadas, só posso fazer que sim com a cabeça.

Falar da crítica como um todo é, aliás, um exagero. Feitas as contas, são meia-dúzia os que escrevem na imprensa e outros tantos os que trabalham na universidade. Não há todo, há partículas dispersas. Se me alongar de mais neste parágrafo terei falado de todos os casos particulares e perdido qualquer hipótese de generalizar para abstrair das pessoas em concreto. As excepções ao caso geral são a regra.

E isso de ser crítico é outra grande falácia. Em Portugal, que eu esteja a ver, provavelmente apenas um dos escribas se declara como crítico às finanças. O resto faz, mas não é. Tem outras actividades, é professor, ou jornalista, ou assessor, ou de tudo um pouco. (À semelhança de Jorge Silva Melo, aliás.) O que não está mal, nem bem, é o que é. Assim, os críticos têm mais liberdade para dizer o que querem. Por outro lado têm outra vida, e mais que fazer do que ver espectáculos e escrever sobre eles. Até porque não há espaço para tanto. Quando o crítico acabasse de planear a sua agenda para ver tudo, já teriam saído de cartaz vários espectáculos. Para sobreviver no mercado de futuros e derivados, os artistas optaram por patrocinar as antevisões de espectáculo e ostracizar a crítica. As carreiras dos espectáculos são tão curtas que as críticas perdem relevância. Porque haveria um jornal de as publicar, se o espectáculo é tão irrelevante que já nem está em cena? Se fôssemos contar as críticas publicadas ao longo de um ano a conclusão seria esta: os críticos são fantasmas, e as críticas correntes de ar. A rarefação de críticos e de críticas impede a sua melhoria, que todos reclamam. Estou quase a pedir um apoio ou subsídio para a crítica, parece, caro leitor; mas não se preocupe, vou parar antes disso.

Há coisas que matam a crítica. O crítico dá estrelas, as gentes deixam de ler o texto. O crítico é taxativo, perde mistério. O crítico é ambíguo, ninguém percebe se gosta ou não. No circo romano não há debate crítico, há polegar para cima ou polegar para baixo. É o facebook e a bolsa de valores ao mesmo tempo. Contra isso, mais texto, mais argumento, mais força de atrito, apelou Silva Melo.

O conferencista pediu antagonismo, mas gerou pouco. De resto, Silva Melo tem razão. Como contradizê-lo? O Jorge não gosta da crítica que se faz hoje porque ela não tem autoridade suficiente para criar polémicas dignas de nota, e isso aumenta a solidão dos artistas. É verdade. Sem Abel, não haveria a história de Caim para contar. Isso é que é dialéctica.

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