Contraponto de Encontro

CICLO DOCUMENTE-SE!
Black Tie, de Helgard Haug, Daniel Wetzel e Miriam Yung Min Stein
Porto, 29 de Novembro [****]

Este espectáculo começa com os actores descontraidamente sentados num pequeno plateau em cima do palco, enquanto o público entra, ao som de uma canção muito popular dos U2. O plateau está revestido, sabemos depois, com uma ampliação do mapa genético de Miriam Stein, jornalista musical de profissão, a nossa anfitriã esta noite. A um canto fica Ludwig, o músico, operando som e imagem. A meio há uma tela, com uma inscrição em coreano no topo, onde serão projetados vários documentos. À frente dois microfones, usados por Miriam e também por Hye-Jin Choi, que só aparecerá mais tarde. Durante uma hora e meia é-nos apresentado o caso de Miriam Yung Min Stein, nascida na Coreia do Sul e deixada dentro de uma caixa de sapatos em frente à câmara municipal de Seul, e o modo como a sua história individual se cruza com a história de pessoas e instituições de todo o mundo, desde o fundador norte-americano da agência de adopção internacional à família alemã que acolheu o bebé nos anos setenta. Apesar de ser uma performance, esta biografia pertence realmente à pessoa que está à nossa frente a relatá-la. Miriam não conheceu os pais biológicos, e todos os tópicos relacionados são explorados nesta apresentação: as contradições da ajuda internacional, as empresas de descodificação do genoma on demand, os grupos genéticos a que pertence cada pessoa, os reality shows de reencontro de familiares perdidos.

O espectáculo é feito de forma simples e engenhosa, e o assunto (a importância da cultura e da biologia no destino pessoal) é exposto com lucidez, originalidade e gosto. Trata-se de uma verdadeira arte de intervenção, no sentido em que se propõe participar num debate colectivo acrescentando ideias e expondo argumentos. E por muito sóbria e sem sentimentalismo que seja, é uma intervenção emotiva, a que não falta uma pitada de melodrama. Quando Miriam saiu da casa dos pais adoptivos, a mãe pediu-lhe que devolvesse a chave. Talvez a senhora Stein quisesse apenas dizer à filha que gostava que ela usasse mais a chave, mas a crueldade do pedido fechou de vez o ciclo de caridade iniciado com o pedido de adopção internacional, e pôs Miriam definitivamente no papel da vítima. O espectáculo cria uma comunhão com o espectador menos embaraçosa e mais politizada que os programas de TV, servindo precisamente de contraponto à comercialização das questões de identidade.

A sensação de desconforto existencial de Miriam – uma adolescente de traços orientais na República Federal da Alemanha – propulsionou a busca das suas origens e da sua identidade. Na Coreia, é alemã; na Alemanha, uma estranha. Qual é a sua identidade, afinal? O mapa genético indica uma propensão para ter a doença de Alzheimer. Miriam constata que além do buraco negro que é o mistério da sua proveniência, um outro abismo a espera no final da vida, quando se tiver esquecido de tudo e apenas puder recordar as suas canções preferidas. Esse top ten é que é genoma dela.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: