A vida anterior de Mark Rothko

Vermelho, de John Logan, encenação de João Lourenço
Lisboa, Teatro Aberto, 23 de Dezembro, 21h30, casa cheia { * * * * * }
 

A estrela desta produção é o espírito de Mark Rothko, interpretado por António Fonseca. Em 1958, Rothko era um pintor à beira da consagração quando foi convidado a criar um conjunto de murais para um luxuoso restaurante de Nova Iorque. O pintor viu na encomenda a oportunidade de mostrar que a sua arte não era um bibelot de luxo. Ao verem as suas telas trágicas, os ricos perderiam o apetite. Em 1959, porém, depois de ter pintado trinta quadros, parou tudo. ‘Vermelho’ é uma investigação sobre os motivos dessa recusa, mostrando as etapas de trabalho de Rothko ao longo de dois anos, acompanhado por um jovem assistente (João Vicente), aprendiz de pintor, que não só assiste ao duelo interior de Rothko, como também se bate com ele, a propósito das paixões, medos e dores do artista. Rothko é salvo pelo assistente, que confronta o mestre e lhe revela a auto-ilusão: os quadros não tirarão o apetite a ninguém. Mas é pintor quem dá a última lição, passando o testemunho ao aprendiz: “Faz qualquer coisa de novo.”

Um dos momentos chave da peça é quando o assistente encontra o mestre com as mãos e os pulsos tintos de vermelho, e pensa que ele se tentou suicidar. Desta vez, foi apenas tinta. A cena antecipa o desespero do artista: em 1970, no mesmo dia em que chegavam à Tate Modern, em Londres, as últimas das trinta telas jamais entregues, Rothko pôs fim à vida, com um golpe profundo em cada braço, deixando uma imensa poça de sangue no chão do seu apartamento.

O espectáculo mostra um ser humano em profunda reflexão sobre a consequência dos seus actos. O autor incrustou no texto pequenas pérolas do próprio Rothko, e inventou as situações que lhes poderiam ter dado origem. O resultado é um condensado muito plausível da vida anterior e posterior de Rothko. No fim de tudo, o pintor repete a pergunta que fez no início, a respeito de um quadro que estaria pendurado exactamente na parede que dá para a plateia. “O que é que vês?” A resposta é a mesma, “Vermelho”. Porém, o dito e feito durante o espectáculo tornou o significado da palavra mais rico e diverso. A peça faz uma das operações maravilhosas do teatro: a condensação em poucas e simples palavras de um drama pessoal excessivo.

João Lourenço focou os aspectos principais do texto, como se a encenação fosse a arte de permanecer invisível, tornando credível a tragédia pessoal do pintor. O cenário foi montado como se a plateia estivesse no atelier, e não num teatro. O espectáculo é não só realista, mas também real. António Fonseca dá vida a Rothko compondo uma trajectória emocional fala a fala e usando os dilemas interiores da personagem para dar vivacidade à cena. Nos momentos cruciais da peça tem todos os trunfos para ganhar o público. João Vicente faz bom uso dos argumentos que lhe foram confiados pelo dramaturgo para dar réplica à personagem maior-que-a-vida de Rothko. Mas Fonseca vai além disso, encarnando a ironia, a gravidade e o sentido do trágico com precisão e harmonia raras. As contradições do pintor, sensualista, mas religioso, avaro, mas desprendido, humanista, mas amargo, requeriam uma actuação assim. Se a dedicação de Rothko à arte prova a sua humanidade, a humanidade da encarnação de Fonseca demonstra a arte do actor (e demais criadores). Num tempo em que ser prazenteiro é quase uma obrigação, e a arte parece ter como única justificação essa utilidade, a fidelidade de ‘Vermelho’ ao espírito de Rothko recorda que nem só de pão, nem de circo, vive o homem.

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