Quem com ferros mata, com ferros mói

Medida por Medida, de Shakespeare, encenação de Nuno Cardoso
Porto, TNSJ, 9 de Maio, 21h30 * * * *

Medida por Medida é mais uma realização de Nuno Cardoso com os suspeitos do costume. Felizmente. Se todos os trabalhos tivessem esta consistência, poderíamos dormir mais descansados. A peça é uma das «comédias sombrias» do autor, escrita em tempo de puritanismo e duplicidade de critérios, que contrasta o mundo dos bordéis com o mundo da política, explorando as relações entre sexo e poder. O Duque de Viena, aparentemente arrependido por ter governado com demasiada tolerância, decide sair pela cidade para ver em primeira mão as consequências do seu governo. No poder deixa um delegado, Ângelo, responsável por impor medidas duríssimas contra a prostituição e a liberdade de costumes, em especial o sexo fora do casamento. Um cidadão, Cláudio, é condenado à morte por ter consumado o acto antes de tempo, isto é, antes de um acordo quanto ao dote. O delegado, que afinal tem dois pesos e duas medidas, promete salvar a vida de Cláudio em troca da virgindade da irmã, Isabela. O duque, disfarçado de frade, convence Isabela a aceitar o negócio sexual mas a enviar em seu lugar a noiva de Ângelo, deixada no altar, consumando esse antigo voto. Depois de alguns volte-faces, o duque resolve a situação.

Porquê fazer esta peça hoje? Dotes, noivados e consumação são questões muito relativas… O propósito está bem enunciado pela cena: denunciar a prepotência e o abuso dos poderosos, e tratar da dificuldade em governar com justiça. O desfecho, com uma visão irónica sobre a poder discricionário do duque, acrescenta um ponto à visão de Shakespeare. As bandeirinhas cor-de-laranja que acolhem o seu regresso não deixam dúvidas. Mas é apenas uma narrativa sobre os dias que correm, com alguns anacronismos, dizendo algo que já toda a gente sabe, não um pedaço de teatro que nos perturbe.

Talvez por estar a pregar para convertidos, o espectáculo arrebata é nas cenas cómicas, em que os actores fazem tipos sociais, bem retratados com o corpo. Desde o vilão Ângelo aos honestos cidadãos do mundo dos bordéis, o público ri facilmente da hipocrisia moral. A coisa vacila é quando é preciso caracterizar uma personagem mais reflexiva. As falas do Duque e de Isabela são fastidiosas. O texto de Shakespeare é deslumbrante e o esforço dos actores louvável, claro está. Mas não faz verdadeiramente sentido. Um dos discursos principais, no final, dito pelo Duque, é ouvido com desatenção pelo público, enquanto os olhos seguem a tentativa de fuga de uma das personagens secundárias, o fanfarrão Lúcio. As personagens-tipo sobrevivem a tudo, e a encenação prova isso. Já os dilemas éticos destas figuras escapam à maior parte de nós. Talvez a melhor estratégia seja a de Cláudio da Silva, o actor, que opera com distância a prosa da sua personagem, ganhando propriedade de discurso.

Melhor ainda, as cenas de coro e os apontamentos visuais batem em sítios esconsos da alma. Em paralelo à acção central ou como pano de fundo do enredo principal, os reclusos de saco negro na cabeça e a lingerie do condenado, por exemplo, dizem mais sobre a repressão da liberdade sexual como forma elementar de abuso que outras soluções cénicas. Até as separações de cena, com a bateria aos berros, fazem melhor prova de teatralidade. Estas micro-performances poderiam estar neste como noutro espectáculo, e ficamos à espera de ver onde e quando explodirão de modo fulgurante na cena de Nuno Cardoso.

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