Mergulhar na piscina de cabeça vazia

Penélope, de Enda Walsh, encenação de Jorge Silva Melo
Porto, TeCA, 12 de Maio * * * 1/2

ESTE TEXTO – uma encomenda de um teatro alemão para a escrita de uma peça a partir da Odisseia – adopta um ponto de vista marginal sobre a parte final da epopeia contada por Homero, quando se dá o muito aguardado regresso de Ulisses a Ítaca, vinte anos depois da partida de Tróia. Ao invés de escutar as personagens principais, Enda Walsh teve a ideia de ouvir as falas dos pretendentes de Penélope, acompanhando os últimos momentos de quatro deles, antes da vingança de Ulisses pelo abuso da hospitalidade. O quarteto está instalado numa piscina vazia, onde passam os dias em churrascada perpétua, naquele que parece ser o destino natural dos homens de classe média, meia idade e pouca potência, com a grande desvantagem de a churrasqueira não funcionar. O quarteto, agora; antes eram cinco. A peça começa após a morte de um quinto pretendente, cujas marcas de sangue na parede da piscina não se conseguem limpar, e que despertou em Burns, o mais novo, a fé no amor. A churrasqueira é o último grito em matéria de barbacoas, chegada misteriosamente, qual Cavalo de Tróia. A noite anterior apareceu-lhes em sonhos, usada por Ulisses para assar os corpos retalhados dos abusadores. Querendo poupar-se a esse lume, os homens decidem cooperar entre si nas tentativas ridículas de sedução da rainha. Não conseguirão.

UMA ILHA, uma mulher, vários homens. Tentar conquistá-la e falhar passa a unir estes homens na vida e na morte. A leitura edificante de Homero por parte de uma das personagens lembra-nos que esta não é uma re-versão da Odisseia, mas uma vivência contemporânea que tem por referência essa outra história. Enda Walsh lida com a tragédia de modo impecável, conseguindo a proeza de nos maravilhar perante a concretização do presságio, quando a Barbacoa se incendeia sozinha, no final. Uma churrasqueira passa de sonho de consumo a maldição dos deuses. Afinal existem divindades, as mais poderosas das quais operam o significado das coisas, no teatro. O ponto de vista é muito apropriado, já que as tragédias de hoje são aparentemente apenas individuais. Imaginar o colectivo – ou o amor – é a impossibilidade trágica destes indivíduos. A tragédia possível é a falência do amor, traduzida na imagem de uma mulher intangível.

O TRABALHO dos Artistas Unidos sobre este e outros textos, ficou claro há muito, é mais uma aliança entre actores e autores do que o primado do encenador. Logo, é na voz do dramaturgo que se deve procurar o objecto deste trabalho. A peça é reconstituída com vida. Ainda assim, falta uma realização mais concreta e verosímil das acções físicas, que não acantone o espectáculo numa mera representação do texto, e o faça acontecer de novo, de repente, de fresco. Sempre que se dá uma actuação desse tipo, a cena ganha outra vida. A maior parte das vezes, porém, a coberto da ideia que a vida real é apenas mais uma farsa, a violência da peça e das personagens acaba por não ser exposta. Um espectáculo a ver com atenção.

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