Sinal intermitente

Indian Tempest,  a partir de «A Tempestade», de  Shakespeare, direcção de Paddy Hayter
Porto, Mosteiro de São Bento da Vitória, 28 de Maio * *
As Intermitências da Morte, a partir do romance de Saramago, encenação de José Caldas
Porto, TeCA, 30 de Maio * * *

IMPOSSÍVEL desligar esta «Indian Tempest» do contexto em que foi criada. Já com várias mudanças de pele, a Footsbarn é uma companhia fundada em Inglaterra, num celeiro, em 1971; sediada em França, numa quinta, desde 1991; com a cabeça na Índia, desde 1994, na região de Kerala, da qual «desejavam falar»; e instalada por três meses no Parque Desportivo de Creixomil, Guimarães, no âmbito da Capital Europeia da Cultura 2012, para fazer um trabalho com a comunidade. O resultado? Um «digest» da última obra de Shakespeare, falado em inglês, francês, sânscrito e kerala, sem legendas; repleto de efeitos teatrais tão batidos que doía (panos, cordas, paus, etc., e, no final, uma tigelinha em chamas); e cheio de trejeitos inconsequentes, por parte dos actores, para chamar a atenção do público, isto ao mesmo tempo que executavam as marcações, os truques e os números com uma imprecisão atroz. Quem ainda não conhecia a peça, ficou sem conhecer; quem já conhecia, assustou-se com as amputações de «A Tempestade». Salvou-se a música e o Mosteiro de São Bento da Vitória. Enquanto em Londres decorre o festival Globe to Globe, com as 37 peças de Shakespeare em 37 línguas diferentes, cada uma delas adaptada a um contexto político local, reforçando a grandeza de cada obra e explorando as particularidades de cada texto, da Europa veio este presente envenenado que não é nem vimaranense, nem francês, nem indiano, nem inglês, nem, claro, o Centro Internacional de Pesquisa Teatral de Peter Brook.

«AS INTERMITÊNCIAS da Morte» é uma adaptação, em estreia mundial, da obra de José Saramago. Co-produzida pelo Itaca Teatro e pela Quinta Parede, o espectáculo é falado em italiano e português, intercalando várias cenas de diálogo entre personagens do romance com outras tantas canções feitas a partir de excertos da narrativa, e cantadas por narradores em traje de cerimónia. Fiel ao texto original, esta sucessão de cenas breves com pequenos números musicais está colada como uma montagem cinematográfica. A primeira parte do espectáculo expõe a alegoria saramaguiana de um país onde os óbitos cessaram por vontade expressa da Morte e uma segunda parte, mais curta, mostra a tentação da ceifeira em tornar-se mulher e apaixonar-se por um homem (um mito antigo), e as respectivas consequências. A montagem é simples e sugestiva, com a manipulação dos objectos, o enquadramento das personagens e a grande diversidade musical a serem usados de modo evocativo, original e harmonioso. O espaço é metafórico e os objectos são simbólicos, casando bem com o relato mitológico da humanização da morte, que por sua vez prende o espectador. Porém, o facto de as cenas serem curtas e, por um lado, e essa grande desvantagem do teatro em relação ao cinema que é a demora na mudança de planos, por outro, faz com que o tempo de transição entre cenas seja demasiado grande, e repetido. Além disso, a grande variedade de histórias, figuras e temas não só tira unidade a esta montagem, o que não teria importância, mas também e sobretudo força, por inibir o desenvolvimento das personagens e das situações.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: