Sinal aberto

O Doente Imaginário, de Molière, encenação de Rogério de Carvalho
Porto, Teatro Nacional de São João, 1 de Junho * * * *
Petra, la Mujer Araña y el Puton de la Abeja Maya, a partir de Fassbinder, encenação de Sol Picó
Porto, TeCA, 3 de Junho * * * 1/2

A crise deve fazer bem aos criadores teatrais, ou pelo menos a alguns, a julgar pelas últimas produções de Molière que a companhia portuense Ensemble levou à cena (Antes desta, O Avarento). Quanto mais não fosse, a escolha do repertório é certeira. Não só os predicados das personagens de O Doente Imaginário ecoam os dias da vida dos espectadores de teatro, como os papéis da peça de Molière assentam como uma luva aos actores escolhidos. A tradução é impecável, num português elegante mas familiar, e as falas ditas com propriedade pelos intérpretes. Os actores entendem o texto original, os espectadores entendem o que os actores dizem e, ainda melhor, percebem bem o que as personagens querem dizer. Peça, espectadores e actores reconhecem-se uns nos outros. O fingimento é conduzido com maestria, e a obra é interpretada com o ritmo e a musicalidade necessários para levar o espectador pela mão até às cenas finais. Isto é possível, claro, porque cenário, figurinos e luz, em vez de se meterem no meio do caminho, como é costume, estão ao serviço de uma concepção do espectáculo simples e rigorosa, que amplia os significados do texto.

Que concepção é essa? Fingir – ter fé no fingimento – é parte da vida. Jogando às ficções, tiramos a verdade da sombra. As máscaras revelam mais do que escondem. Aliás, sem elas, a verdade não é exprimível. A fantasia hipocondríaca de Argão é a sua maneira de dizer a verdade. Para o bem e para o mal, essas ideias conduzem-nos. O bom senso é a medida de todas as coisas e toda a autoridade ideológica deve ser moderada pelo riso. Em cena, estas ideias traduzem-se nos tons expressionistas dos actores, de perfis e atitudes bem vincadas, e na capacidade que têm de acreditar nas propostas mais mirabolantes. Esse estilo e essa credulidade destacam-se das linhas rectas e dos volumes a uma cor, desenhados no palco pela combinação dos designs de cenografia, guarda-roupa e iluminação. A peça vem ao de cima, e a encenação como uma das belas-artes também.

Em estreia absoluta no FITEI, este espectáculo continua no TNSJ até 1 de Julho.

A companhia da bailarina e coreógrafa Sol Picó trouxe ao Porto a sua leitura de As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, de Fassbinder, traduzindo para um circo de feras humanas, que também era uma gigantesca teia de aranha (onde os mastros da tenda circense faziam de patas do aracnídeo), as relações amorosas caracterizadas pelo autor alemão. A visão da encenadora abre pistas novas para sonhar o drama das personagens de Fassbinder como um trapézio, uma feira de atracções ou uma rede, e o movimento abstracto dos corpos exprime a angústia e o prazer das figuras dramáticas de um modo até então indizível. Esse ponto de vista sobre a trajectória de cada personagem sublinha o abuso, a exploração e a depredação entre as figuras humanas, mas mostra ainda como o espectáculo do eu é a moeda corrente do mercado das paixões e dos prazeres retratado na peça.

Entre Molière e Fassbinder vai mais do que um passo, mas o retrato das auto-ilusões é um dos pontos em comum entre os dois autores, e um dos pontos fortes das artes performativas.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: