Mais ou menos teatro

± 0 (um acampamento no subárctico), encenação de Christoph Marthaler, cenografia e figurinos de Anna Viebrock
Lisboa, 13 de Julho * * * *

Ao comum dos mortais pouco importa tudo o que se saiba ou tenha sido escrito sobre esta obra de Christoph Marthaler (encenador e músico) e Anna Viebrock (cenógrafa e figurinista), criada com os seus colaboradores habituais. Mais ou Menos Zero está desenhado de modo a proporcionar aos espectadores uma encantada estranheza com a Gronelândia, representada por uma base científica no Árctico, distante tanto no tempo como no espaço dos nossos costumes, isto é, um lugar onde as pessoas fazem as coisas de maneira diferente.

Regressados do exterior gélido, os ocupantes da dita base matam o tempo com as práticas mais inesperadas, todas contrárias aos passatempos e afazeres electrónicos do mundo contemporâneo. Espalhados pelo chão, aliás, inúmeros telemóveis (e alguns comandos de televisão) estão abandonados durante todo o espectáculo, dada a sua inutilidade óbvia, e quando tocam ninguém se dá ao trabalho de atender, pois será, obviamente, engano.

Os actores lêem, cantam, conversam e inventam jogos para se distraírem. Este mundo novo, com as suas possibilidades infinitas de recreio, é mostrado como se fosse visto pelos olhos de uma criança que se intriga com o mundo dos adultos e transforma os objectos e preceitos do quotidiano em brinquedos e regras de jogo. O momento mais feérico é quando os acampados se dedicam a pontapear os telemóveis abandonados segundo as mais diversas modalidades e estilos simuladamente desportivos. Desprezar e destruir telemóveis será provavelmente o acto mais libertário ao alcance de muitos, nem que seja simbolicamente, no palco.

À primeira vista, o espectáculo é sobre o degelo e as alterações climáticas. Mas a teatralidade de Marthaler é feita de cores, objectos, ritmos, harmonias, gestos, expressões e (parcas) palavras organizadas segundo uma sensibilidade livre, atenta a tudo, que não ordena nem hierarquiza os factos da realidade. O espectáculo às vezes parece um documentário, outras vezes um concerto, outras vezes um livro, outras ainda uma exposição; mas é sobretudo um labirinto, cujo gozo vem de nele a gente se perder, não de lhe encontrar a saída.

Esse é que é o jeito do espectáculo, consonante, claro está, com uma outra visão da natureza, e a correspondente ambição para os destinos do planeta, do que a actualmente em vigor. O discurso vem, de resto, de um outro lugar, incógnito, através de altifalantes, proferido por agentes algo secretos, estranhos à realidade lúdica dos presentes. A voz surge ora como fonte de autoridade ora como expressão de dúvidas, políticas e existenciais, impondo-se aos ocupantes como a fala de um pai – por exemplo. Em contraponto, três fábulas, uma das quais em língua nativa, parecem ser os momentos em que o verbo se encontra com as pessoas. O que o espectador infante não compreende nem reproduz verbalmente, intui pelos sentidos. Passe a citação, sentir é estar distraído. Marthaler é um guardador de rebanhos no Árctico.

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