Quando eu piso em folhas secas

O Sr. Ibrahim e as Flores do Corão, com Miguel Seabra e Rui Rebelo
Almada, 16 de Julho * * * *

O Sr. Ibrahim e as Flores do Corão é a história de um rapaz de origem judaica, passada em Paris, nos anos sessenta, contada na primeira pessoa. Moisés, de diminutivo Momo, acaba por se converter em Mohamed. O autor, Eric-Emmanuel Schmitt, pretendeu, com essa conversão, provocar dando uma imagem positiva do Islão. Um romance dos anos setenta, La Vie Devant Soi, de Romain Gary, partilha com esta peça o nome do protagonista e alguns elementos do enredo: nessa obra, um jovem muçulmano cuida de uma velha senhora judia; nesta, um jovem judeu é adoptado por um velho senhor muçulmano. O texto original é um monólogo escrito por Schmitt para uma pessoa em específico, um actor seu amigo, cuja história particular se assemelha com esta em vários pontos, numa espécie de biografia fantástica. Desde então tem conhecido inúmeras adaptações ao palco e às telas. Esta versão de Miguel Seabra é apresentada de modo muito sóbrio, com o actor e encenador sentado, sozinho, em frente à plateia, contando a história, e o músico Rui Rebelo acompanhando à guitarra e ao piano.

A narração vai conquistando a sala pouco a pouco, com o público rindo em uníssono com as descobertas de Momo e comovendo-se com a procura do amor paterno. No final, a sala fora arrebatada. A empatia do actor com o público é uma das causas desse arrebatamento. Miguel Seabra procura desde o início criar cumplicidade com o público, trabalhando tando o está a ser dito como o que está implícito ou fica subentendido. A simplicidade do que é visto e ouvido em cena aumenta essa cumplicidade, não porque peça licença para existir, mas porque convida o espectador a dar significados às coisas. O ponto de vista de Momo sobre os outros é representado de modo tão concreto, tão bem apropriado pelo actor, que realmente desfilam perante nós as personagens e os factos da história que está a ser contada. Só dessa maneira é que se poderia acreditar na reprodução que Miguel Seabra faz de Brigitte Bardot a entrar na dita mercearia.

O ponto de vista do actor sobre a personagem de Momo (e as demais personagens e respectivos pontos de vista) é banhado a nostalgia, uma certa nostalgia difícil de definir, e pincelado de ironia. Miguel Seabra constrói uma sintaxe sentimental para partilhar o seu ponto de vista sobre a história, sintaxe que é, antes de mais, uma gramática dos sentimentos em si, não apenas da história contada. O relato é um modelo de sensações, sentimentos e emoções, ilustrado pelo que o autor faz acontecer a Momo, e encarnado pelo mapa emocional que o actor (e o músico, claro está) vai desenhando para os espectadores seguirem, à medida que conta a história. Esse mundo sentimental é comum a judeus, cristãos e muçulmanos, sejam europeus, africanos ou asiáticos, e é na expansão da compaixão (alguns diriam «do sentimentalismo») que este espectáculo encontra a sua força. Nesta viagem, o actor encontra um jeito de se dizer a ele próprio e, em cumplicidade com o público, de fazer os espectadores redizerem-se, ou pelo menos ouvirem-se, na voz do intérprete. É um faz-de-conta, mas a sério.

[Culturas diferentes têm vocabulários diferentes para organizar as sensações, tal como os Inuit – todos sabem – têm dezenas de palavras para distinguir dezenas de tipos de neve diferentes. O exercício desse vocabulário causa emoções em si, é sentimentalista, pois claro, mas só quando gira em falso. Quando um fado encontra uma subjectividade que o realiza, a performance é tão real que é recompensada pelo apreço dos demais. O sentimentalismo é jogo, simulacro, brinquedo, preparação para a vida. Mas sem ele não haveria primeiro, nem segundo, nem verdadeiro amor.]

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4 thoughts on “Quando eu piso em folhas secas

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  1. Magnifico, de uma intensidade inexcedível. Somos completamente transportados para outro mundo, vivemos três personagens de modo igualmente sublime. Se me é permitido, foi o melhor desempenho que já vi algum actor ter, sendo que, embora único, não se trata nunca de um monólogo, embora até a introspecção teve lugar o que reforça o carácter difícil da representação. Parabéns, sempre!

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