À luz de um navio invisível

Estaleiros, de Marco Martins e Nuno Lopes
com os trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo
Viana do Castelo, 27 de Julho * * * * 

Enquanto em todo o mundo milhões de telespectadores assistiam acotovelados à cerimónia de abertura das olimpíadas de 2012, numa pequena cidade do noroeste peninsular algumas centenas de pessoas esperavam a vez de entrar no cenário natural da doca pesqueira de Viana, junto ao Forte de Santiago da Barra, para ver um espectáculo sobre os Estaleiros Navais, ou melhor, sobre a espera a que estão obrigados os trabalhadores da casa – enquanto não é resolvido o impasse financeiro da empresa. Em Londres celebravam-se as indústrias culturais, na capital do Alto Minho entoava-se um requiem pelas vítimas do capitalismo tardio, criado por Marco Martins a partir de testemunhos de operários, com os próprios em cena. O espectáculo bem podia fazer parte de um remake de Cenas da Luta de Classes em Portugal, o documentário de Robert Kramer filmado em 1977. Pelo menos é o que dá a entender o começo, com um pequeno cortejo fúnebre em que o caixão é afinal um dos cacifos pessoais dos funcionários da empresa, e as palavras da canção de Chico Buarque: «Foi bonita a festa, pá.»

O cenário é impressionante: à esquerda, um cais desactivado, um edifício do Instituto de Socorros a Náufragos e um farolim; ao fundo, os reflexos negros das águas paradas do porto, e mais adiante, no cais do outro lado, em frente, a pouca actividade portuária que existe; à direita, a muralha do forte, com os monumentais guindastes por trás, e as grandes iniciais iluminadas no topo: ENVC. Tudo isto, mais o que os performers fazem, é iluminado com grande maestria por Nuno Meira, que compõe com pouco mais de meia dúzia de projectores uma autêntica cantata e fuga para órgão de luzes, capaz de induzir por si só, pelo menos no crítico, os mesmos sentimentos de perda e esperança por que passam aqueles homens e mulheres de Viana. A tradução dessa sensibilidade em forma teatral (de que o desenho de luz é um exemplo, mas que é comum à interpretação e à mise-en-scène) enriquece a narrativa dos ENVC.

Os relatos – da entrada para a empresa, de momentos especiais vividos em conjunto e dos acidentes mortais que viram – dão nota do sacrifício colectivo que exige cada navio, ainda mais quando se sabe que estes operários nunca navegaram nas embarcações que construíram, e apenas os abençoam com sangue, suor e lágrimas, onde outros os apadrinham com champanhe. O momento alto do espectáculo é precisamente quando uma das funcionárias se dirige ao fundo do cais para baptizar um navio invisível, proferindo as mesmas palavras mágicas vindas da boca da autoridade eclesiástica. É a vingança poética permitida pela obra.

O espectáculo conta a história do desmanche de um modo de produção, o da empresa pública, e da lenta agonia que precede a privatização desta. Ao dar voz e corpos aos dramas pessoais que se escondem por trás da contabilidade oficial, faz prova de uma dedicação admirável, que vários administradores e governantes não merecem. É a abnegação desse mesmo povo que, dizia uma deputada na televisão há dias, em Portugal sempre foi melhor que as elites. Mas o espectáculo é mais um paliativo que um protesto. As causas materiais do estado-a-que-isto-chegou não são expostas, como se todos soubéssemos do que se está a falar. Talvez sejam precisas novas formas de falar dos factos. Mas também talvez seja possível que, num espectáculo de teatro documental e comunitário, a causalidade dos factos conviva mais de perto com a sensibilidade das formas.

[versão longa]

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