Para memória futura (Teatro do Vestido)

Esta é a minha cidade e eu quero viver nela, de Joana Craveiro
Porto, 27 de Março * * * *

Esta obra consiste num percurso pelo casco velho que circunda o mosteiro beneditino da Vitória, durante o qual são apresentadas sete cenas, por sete actores, em sete itinerários diferentes, apresentadas ora nas ruas, largos e jardins ora no interior de algumas casas e estabelecimentos da zona, e umas vezes em andamento, outras vezes parados. O trabalho parte de um dispositivo experimentado em Lisboa, mas adaptado e reescrito para o Porto. Esta versão inclui histórias e testemunhos recolhidos junto dos moradores durante as cerca de duas semanas de criação, mas também outro tipo de fontes, desde textos e canções até imagens e objectos: todo um inventário de coisas que possam ter significado para os actores e para o público, ao qual é proposto que complete na sua imaginação parte das histórias que aqui começam a ser contadas. Não se deve relevar mais do que isto, sob pena de estragar a surpresa.

No dia em que foi visto, os populares ainda disputavam com os actores a atenção da plateia, discordando sobre o nome das ruas e a verdade dos factos relatados, refazendo a ocupação do espaço cénico conforme lhes apetecia e intervindo na paisagem sonora segundo a necessidade e o desejo. Nada de grave. Os moradores limitavam-se a invocar os anos de residência no bairro, com a vantagem de estarem à janela da própria casa, e a comentar para o público ou para os vizinhos tanto o que se estava a passar como assuntos particulares e notícias locais. Talvez não fizesse mal ser um pouco mais permeável às reacções espontâneas de espectadores e moradores. Mas, por um lado, o grande objectivo da obra – traçar um novo mapa poético desta zona da cidade e dar direito de cidadania aos episódios e personagens mais inesperados – pedia uma certa imposição de formas e assuntos. Por outro, a existência de sete grupos a circular pela zona não aconselhava demoras e atrasos.

As ruas do Porto, com os seus muros de granito, fachadas de azulejo, obras de cantaria barroca e clarabóias quase escondidas, oferecem ao transeunte uma memória narrada e revivida desde há muito. O espectáculo aposta numa nova versão da história dessas ruas e casas, agora mais quotidiana, mais fantástica, mais cosmopolita. Onde antes havia a história oficial e monumental, a das monografias, guias de viagem e dicas de turismo religioso para o visitante desprevenido, ou onde a referência da memória era o passeio mais ou menos romântico do flâneur do séc. XIX e o espírito mais ou menos ausente de Garrett ou Camilo, entre outros, este espectáculo cria novas fábulas, apresentadas por figuras excêntricas e misteriosas, que nos dão a ver outro Porto. Apropriando-se do território pelo simples acto de contar histórias, estes outros fantasmas assombram bem a cidade, ou pelo menos a freguesia da Vitória, reclamando esta terra como sua, sem deixar de a relacionar com o mundo exterior de que a Invicta sempre foi uma antena. Vá ver e invente a sua história.

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3 thoughts on “Para memória futura (Teatro do Vestido)

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  1. Fantástico! Hoje fomos em família ver o vosso espectáculo e saímos de lá com sorrisos estampados no rosto! As filhas (de 10 anos de idade) seguiram todos os passos com tanta ou mais atenção do que nós! Nós, os adultos, trocávamos olhares de cumplicidade quando partes da história nos eram mais familiares… Um espectáculo romântico cheio de acção, que nos prende do princípio ao fim!
    Parabéns a toda a equipa!

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