Esquerda, direita, dançar, dançar

Al Mada Nada
Encenação de Ricardo Pais
PORTO, TNSJ, 26 de Março, 23h00
Casa cheia
* * * * 1/2

Quando um espectáculo de teatro tem bombos e breakdance (b-boying para os eruditos), que mais se pode pedir? Nada. Al Mada Nada ainda por cima abre com um tema de António Mafra e fecha com um hino revolucionário (Bella Ciao). A peça é percorrida por uma figura fáustica que entoa jactante o verbo de Almada Negreiros. Fáustica ou mefistofélica, a figura, que representa a própria ideia do artista fascinado com a realidade carnal da sua terra, é interpretada por Pedro Almendra com garbo e compasso. A cena transpira sensualidade, com caução intelectual e tudo.

É possível imaginar um Almada rejubilante com os volumes, os movimentos, as cores deste espectáculo, procurando o número sagrado na bola de espelhos que refulge, nas saias de chita com folhos, nos corpos da Momentum Crew e no próprio teatro Aires Mateus (digo teatro que este cenário é quase um dispositivo natural para a estética procurada por Ricardo Pais). Somando o som, a luz, o cenário, o figurino, os intérpretes, o guião, fazendo as contas a tudo, o número final é de ouro, e o Midas desse toque é o encenador, claro. Pois Pais parece sentir-se completamente à vontade a deslizar entre as memórias da rádio que talvez tenha vivido e a cena de dança de rua que viu na TV.

Al Mada Nada tem parecenças e parentesco com muita coisa, mas saltam à memória duas outras criações recentes: Fica no Singelo, de Clara Andermatt, e Tropa Fandanga, do Teatro Praga. Os três recuperam formas populares de dança e teatro, estilizando-as. É uma prática que Ricardo Pais adoptou há muito. A inspiração nalgumas formas tradicionais é algo em comum com Almada Negreiros, também.

Que tem isto a ver com este espectáculo em particular? Um mestre, Bernard Dort, sugeriu um dia que a crítica teatral passasse a ocupar-se não só das formas de cada espectáculo, mas também dos meios de produção que o tornaram possível, avançando da semiótica para a sociologia. Talvez seja um passo maior que as pernas, mas se alguém reconstituísse o nexo entre o país, por um lado, e os espectáculos, os concertos e as exposições que se vêm, por outro, seria outro porventura o estado das coisas. Claro, um espectáculo de teatro não é um sintoma, muito menos uma terapia, dos males da sociedade. Quando muito, é um corpo afetando outros corpos.

Corpos de baile da nação: a evocação de uma ruralidade perdida no tempo, a vista sobre a propaganda oficial ao país, a revisão crítica de canções e danças as mais típicas; são aspetos comuns a estas três experiências, parecendo dar o testemunho de que ainda existe um território cultural comum. Um país “de plástico, que era mais barato!”, como diria O’Neill? A resposta vem no final de Al Mada Nada, quando os b-boys desaparecem ao som de uma versão instrumental de Bella Ciao, que lembra uma caixinha de música da loja dos trezentos, saias deslizando para fora do plano, para dentro da caixa. Após quarenta anos do 25 de Abril, é um salto quântico. Ou talvez não, se lembrarmos, a propósito, também tirado do baú, o depoimento de Robert Kramer a Sérgio Tréfaut no documentário Outro País, de 1998 (sobre os fotógrafos e cineastas estrangeiros que em 1974 vieram para Portugal documentar a revolução): “O meu filme sobre Portugal é o único onde o melhor material foi cortado. Censurado por mim. Por exemplo, tinha uma sequência genial de uma reunião do Partido Comunista, talvez no Porto, muito tarde na noite, onde quatro ou cinco casais de homens, velhos operários, dançam ao som de Bella Ciao, a cair de bêbados, uma cena lindíssima, uma cena muito longa e lenta, e de repente, naquela cena, está toda a história do movimento operário na Europa, a coragem, o beco sem saída…” Palavras para quê?

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