Festival de Almada, amigo, o público está contigo!

Primeiro sábado do 31.º Festival de Almada. Estão programados dez eventos, das 10h30 à meia-noite, hora a que começará a apresentação do Bando, Almada de Quarentena. De facto, parecem tomados por uma doença, os espectadores deste festival. Filas para levantar bilhete, filas para o cafezinho antes do espectáculo, filas para entrar na sala. Sol o dia todo. É o bicho do teatro.

No Fórum Romeu Correia, agora que está perto o início de Branca de Neve, os espectadores na lista de espera são chamados um a um. E aguardam pacientemente a sua vez. Lá dentro, passado cinco minutos, já se ouve um ressonar. É que há espectadores que não perdem uma, mesmo que lhes saia do pêlo. Os espaços onde decorrem colóquio, exposição, música, animação de rua e seis — seis — peças de teatro são como a segunda casa deste público, que surpreende todos os que aqui vêm pela primeira vez. Joaquim Silva, a mulher e a filha já levantaram os seus bilhetes. Não perdem uma edição, e Joaquim tira férias nesta altura do ano, de propósito para o festival. À entrada do Teatro Azul, agora Teatro Municipal Joaquim Benite (TMJB), em homenagem ao fundador do festival, Susana Pinheiro, produtora teatral de Guimarães, entusiasma-se: “Isto é que é mesmo a festa do teatro”. E é com um brilhozinho nos olhos que conta como foi a noite de abertura, na véspera, “de uma grande familiaridade, com novos e velhos juntos depois do espectáculo, no beberete”. “Se for preciso”, acrescenta, “os vizinhos conversam com o director, sem formalidade alguma”.

Em todo o lado, os amantes do teatro perseveram para entrar, para conseguir um bom lugar, para ter a melhor experiência possível. À tardinha, no Pátio do Prior do Crato, chegam à última da hora espectadores que vieram da função anterior no Fórum Romeu Correia, ou da inauguração da exposição de Manuel Vieira no TMJB, ou do colóquio na Casa da Cerca. As combinações possíveis são muitas.

Isabel Pacheco, Ana Vinagre e Zulmira Ribeiro foram buscar agasalhos para se prevenirem contra o esperado arrefecimento noturno, minutos antes de E se nos metêssemos ao barulho?!. Meia hora mais cedo, enquanto lanchavam ao sol, no café do elevador panorâmico da Boca do Vento, mesa com vista para Lisboa, o Tejo e o Ginjal, cruzavam o calendário do festival com a agenda pessoal. Quando começaram a vir ao festival? “Há muitos anos… Estava chateada em casa, sem nada para fazer, vi que havia o festival, e vim. Desde aí, foi sempre.” Professoras do ensino secundário, sempre gostaram de teatro, tanto que chegaram a frequentar a pós-graduação em Estudos Teatrais da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O que mais apreciam no Festival de Almada é a diversidade. Ana recorda o espectáculo “de uns suíços que partiam tudo”, Isabel o À Espera de Godot do Teatro Meridional. “Comprando uma assinatura, conseguimos ver uma data de espectáculos, já viu?”

E se nos metêssemos ao barulho?! é especial: foi a peça escolhida pelo público do ano passado para voltar este ano: é o “espectáculo de honra”. A produtora está nervosa, porque há um ano que a peça não é apresentada. Foi reposta de propósito para Almada. O Pátio também é especial: foi aqui que o festival se firmou, desde a segunda edição, em 1985, e durante mais de uma década, antes de ocupar o TMJB e a Escola D. António da Costa, ao lado, onde ficam o palco grande, as exposições dos homenageados e a esplanada que serve comida, copos e café até altas horas. Só no ano passado, para o 30.º aniversário, cá voltou o teatro. Este pátio, que também foi a primeira sede da Incrível Almadense, é cenário de uma das histórias mais célebres do Festival de Almada: nas primeiras edições, era pedido aos espectadores que trouxessem os respectivos bancos e cadeiras. Como não haveria o público de se sentir em casa?

Joaquim e a família lá estão, indefectíveis: viram no ano passado, claro, mas este é um dos favoritos. Não irão à estreia de Cais Oeste, última produção da Companhia de Teatro de Almada, anfitriã do festival, porque poderão vê-la em Setembro ou Outubro e porque assim ainda apanham o Bando à meia-noite. Domingo, dose dupla em Lisboa: Rui Catalão no Maria Matos, She She Pop na Culturgest. Depois, há Um Fio de Jogo, de Carlos Tê, para ver em Almada. Aguentarão?

Entretanto, a estreia de Cais Oeste, com Soraia Chaves, não parece satisfazer a plateia. Assim como aguardaram pacientemente a sua vez, os espectadores saem sem muita cerimónia, ou porque a peça lhes desagrada ou porque têm de ir a correr para ver outra. No final, entre aplausos efusivos de uns quantos e um ou outro bravo, a maioria da sala sai em debandada, pelas duas alas da bancada, como se não fosse nada com ela. Noutras noites, aplaudirá de pé — se gostar. Talvez até venha uma pateada. É um público em que se pode confiar.

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