Uma revolução comprada no chinês

Luís Miguel Cintra (o Velho), assiste à discussão de Duarte Guimarães (Orestes) e Dinis Gomes

– no Público –

Pílades
Pier Paolo Pasolini

Uma bandeira vermelha é erguida no final deste espectáculo por Luís Miguel Cintra, decano dos actores e encenadores portugueses, este ano homenageado pelos pares no Festival de Almada. Não é ele, claro, mas antes uma personagem, no caso um velho, que prepara cuidadosamente a bandeira, a faz esvoaçar timidamente e depois a usa para cobrir o corpo adormecido de um jovem. Porém, não deixa de ser a figura real de Cintra que coincide com a figura de estilo em cena: um velho empunha um pavilhão vermelho. O que vem a significar isto?

Não se espera que o actor saia do palco com a bandeira na mão e marche com o elenco até à escadaria da Assembleia da República em protesto. Mas um pouco de inquietação em palco levaria o espectador a pensar que, um dia, talvez isso seja possível. Pelo contrário, os problemas e contradições do país lá fora não passam por estes corpos, claramente tranquilizados com a perspectiva de fazer uma récita após a outra o mais cuidadosamente possível. O tom das falas é coloquial e a postura física é neutra. Quando é preciso criar tensão, os corpos e as vozes desenham figuras que representam o conflito, mas não são conflituosos. O elenco não tem peso. O povo é sereno?

As fúrias não são incorporadas. A própria peça representa esse impasse, dada a sua incapacidade para gerar um desfecho trágico. Numa cultura dominada pela ideia de redenção, não surpreende que a forma narrativa mais comum seja a do folhetim semanal, que continua liturgicamente na próxima semana, e não a tragédia ritual. Pasolini acrescentou um episódio à trilogia de Orestes antecipando o estado de espírito dos nossos tempos. Vivemos não o fim da história, mas a diluição da história numa série de TV sem fim. Tudo isto existe, tudo isto é triste, nada disto é trágico.

Os momentos de maior teatralidade e contradição deste espectáculo são aqueles em que Isac Graça faz um travesti mimar canções italianas. Não só o corpo do actor contrasta com a imitação que faz (ou incorpora), como a fantasia do intérprete contrasta com a fantasia do resto do espectáculo, dando-lhe vida. Qualquer assistente de produção do TNSJ saberia encaminhar a equipa para um lugar onde os números de travesti são realmente perigosos para quem os vê. Mas enquanto isso não acontece, pelo menos estes momentos colocam o espectador em confronto com algo de concreto: o desejo de ser outro.

Sem pôr em causa as formas de fazer teatro, um espectáculo dificilmente passa por revolucionário. Ainda que o tema seja a revolução, a forma será conservadora. Este Pílades é uma produção dos dois teatros nacionais, São João e Dona Maria II, três se concordarmos com a opinião que a Cornucópia é o verdadeiro teatro nacional. Teatro mais oficial não há. Nesta mesma semana, um centro de cursos de inglês iniciou uma campanha publicitária cujo slogan é “faz a tua revolução a partir de 74 euros por mês”. Pode ver-se em cartazes espalhados pela cidade no caminho para o teatro. Onde é a porta de saída?

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