Encontro marcado com o diabo

[Pedro Mendes]

Moby-Dick
Herman Melville

[no Público]

Pode dizer-se de Moby Dick, a obra publicada em 1851, que é baseada em factos verídicos. Foram encontrados, até, em 2010, os restos do navio-baleeiro (o Essex), abalroado por uma baleia branca, cujo naufrágio terá inspirado Melville.

O livro não se resume a esse facto, é claro, sendo aliás um compêndio de fontes as mais diversas, com a ambição de reproduzir todo o mundo num só tomo, incluindo nele outros livros e autores, como a Bíblia ou Shakespeare, que Melville engole com gosto. Na medida em que é permitido a uma obra dar conta da vida, esta fá-lo. A aventura de Ismael, ao contar a aventura do capitão Ahab, e dos demais marinheiros, é similar à nossa aventura na terra. Por isso, apesar de composta a partir de materiais reais, específicos e concretos, esta caça à baleia é uma metáfora, ampla o suficiente para que nela caiba tudo o que cada um (dos leitores) lhe destine.

Pode uma peça de teatro para apenas um actor (Pedro Mendes) e um músico (Ruben Jacinto) dar conta dessa ambição? Pode, mas não será fácil. Para que isso aconteça, o mais importante talvez seja garantir que o testemunho, dado pelo narrador, de um encontro com a natureza bruta do cachalote, e do mar, seja tido por verídico, quer dizer, absorvente, e, ao mesmo tempo, significativo para quem o ouve.

Neste espectáculo, o actor começa por se apresentar como Ismael, o narrador do livro original, a quem sucedem as várias personagens do romance, Queequeg, Starbuck, Ahab, entre outros, que Pedro Mendes vai incorporando para mostrar a fábula e nos levar para bordo do navio-baleeiro Pequod – e do livro. Começando como testemunha directa de factos que presenciou, Ismael – digo Pedro Mendes enquanto Ismael – vai aos poucos encarnando a rudeza dos baleeiros, e depois a possessão do próprio Ahab, até chegar a um estado de dita selvajaria, tudo a fingir, é certo, que a história oficial do século XIX pretendeu atribuir ao negro e ao índio, quando estava, afinal, dentro do coração civilizado dos brancos das cidades das luzes. O diabo é o próprio Ahab, ou Starbuck, ou Ismael, muito mais do que o monstro da baleia branca.

Como se contasse que encontrou o diabo, o actor revela em primeira mão o que lhe aconteceu. O facto é ele. O actor, porém, entrega-se mais a si mesmo que aos espectadores, e, embora isso o faça mergulhar no seu mundo particular, mergulho que nos permite conhecê-lo melhor, afasta-o de nós. Poderia mergulhar – ou naufragar – no público? Que segredo terão os actores a ocultar, para tão raramente exporem a sua vulnerabilidade? Há um certo receio que está a mais nesta montagem, e algo a menos, que é inconsciência, obsessão, loucura, um tudo-nada que seja, que a equipare ao ato original, imaginário, de Melville.

É numa viagem com destino ao que há de mais obscuro dentro de nós que o público desta versão embarca, com a promessa de regressar incólume, ou nem tanto, uma hora e meia depois. Estreado no final de 2013, com adaptação de Tiago Patrício e direcção de Pedro Alves, este Moby Dicktrabalha em cima de uma dramaturgia do testemunho, que nos faz viver (e reflectir sobre) o ritual teatral como meio de conhecer os demónios de cada um. Parte de uma trilogia americana, a metáfora aplica-se bem aos monstros e diabos que nos perseguem – e a quem perseguimos quando nos fazemos de monstros e diabos. Falta o acto.

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