Tradição e vanguarda no teatro da Catalunha

Gálvan, Castelluci e Fabre fazem revisão da matéria dada, com brilho, no Temporada Alta, festival de outono da Catalunha, perante plateia de programadores internacionais. Xavier Bobès, Nao Albet e Marcel Borràs, e La Veronal, jovens promessas, não deslumbraram.

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“Pára, pára, pára, pára, pára…” — repete Israel Gálvan, o bailarino de flamenco, enquanto se vão espalhando pelo palco os inúmeros pedaços de uma bota de gesso partida de um só golpe. O tempo fica suspenso. É um gesto de tirar o fôlego, um de vários, de Fla.Co.Men, espectáculo de flamenco “de vanguarda” apresentado no Teatro Municipal de Girona, sábado, 22 de Novembro — momento alto da Semana de Criação Contemporânea e encontro de programadores internacionais (de 20 a 23) do Temporada Alta, festival de Outono da Catalunha.

O bordão é repetido outras vezes, para os músicos. O bailarino retém a energia do grupo por um instante, e logo segue por outra via, como se estivesse na sala de ensaios, à procura do tempo certo para explodir em conjunto, jogo e teoria do duende postos em prática.

O estado de exaltação é buscado pacientemente, para que, em especial, o público acompanhe. Talvez seja uma marca da criação contemporânea vista neste festival: a procura de um estado alterado, de liberdade, em comunhão com a plateia. Fla.Co.Men é uma revisão de vários temas da tradição andaluza e o bailarino um arquivo vivo desse repertório, que dança como se nos desse a ver o fluxo de consciência, de fragmento em fragmento.

Gálvan, que se apresentou no Festival de Almada em 2012, é “artista associado” do Mercat de les Flors, de Barcelona, e já foi co-produzido pelo Théâtre de la Ville, de Paris, dois dos principais centros de teatro e dança na Europa. Tradição e vanguarda são duas faces da mesma moeda, neste festival.

No mosteiro de Sant Domènec, horas antes, Romeo Castelucci apresentara Júlio César – Peças Destacadas, troços da encenação da obra de Shakespeare que tinha feito nos anos noventa. Os gestos dos actores derivam do rito católico e da estatuária romana, para criar uma reflexão sobre o poder da palavra e da voz.

No primeiro pedaço, um actor enfia uma câmara endoscópica na garganta e diz o texto enquanto é projectada a imagem da sua traqueia. No segundo, é suficiente o ruído amplificado dos gestos de comando de Júlio César. No terceiro, o famoso discurso de Marco António (“Amigos, romanos, cidadãos…”) é dito por Dalmazio Masini, poeta reputado em Itália, que tem uma traqueostomia e um aparelho de voz. No último, estoiram lentamente uma fileira de lâmpadas acesas. A tragédia do imperador romano ressoa da maneira mais inesperada. A solenidade vem da vulnerabilidade das vozes.

Attends, Attends, Attends…, de Jan Fabre, apresentado no domingo ao fim do dia, completou este trio de artistas consagrados pelo público, pela crítica e pela rede de programadores, que não deixam os créditos em mãos alheias. Buscando um lugar semelhante, entre o profano e o sagrado, ao de Gálvan e Castellucci, Jan Fabre conduziu o actor e bailarino Cédric Charron, num monólogo dedicado ao pai, que é uma descida aos infernos e uma subida aos céus. Em forma de carta de despedida ao pai, o actor vai desfiando os seus medos e as suas alegrias, num passe autobiográfico que não deixa de ser alegórico. Na figura do filho que acompanha o pai à última morada, acumulam a figura de Cristo falando com Deus Pai, a própria figura do actor dirigindo-se ao encenador, e um barqueiro dos infernos que tudo carrega, entre a esplêndida manipulação do fumo de cena. Íntimo e monumental, visceral e límpido, o espectáculo foi aclamado.
Encontro de artistas e programadores

A peça de Fabre encerrou a programação desta semana intensa (na verdade, quatro dias) que apresentou uma seleção de espectáculos catalães e estrangeiros a mais de setenta programadores de salas e festivais. Em paralelo, decorreu o o ciclo de dança contemporânea #FF80, na terceira edição, para criadores nascidos nos anos 80.

Incluídos na semana dos programadores e nesse ciclo estiveram Pere Faura, com Sin baile no hay paraíso; La Veronal, com Rússia; El Conde de Torrefiel, com La chica de la agencia de viajes nos dijo que había piscina…; Aimar Perez Galí e Maria Campos Arroyo, com Accumulating + Tarannà; e Lali Ayguadé, com Saba. O festival é um grande certame da língua e cultura catalãs, mostrando estreias e jovens criadores da Catalunha a par dos espectáculos internacionais. Os programadores internacionais que vêm ao encontro podem importar para os seus países a produção local.

O primeiro espectáculo deste encontro, na quinta-feira foi Tandy, a última criação de Angélica Liddell, apresentada pela primeira vez em Espanha. Baseada em Winesburg, Ohio, conto de Sherwood Anderson, foi recebida mais friamente que obras anteriores, segundo Dany Chicano, editor da revista de artes cénicas online Proscenium.

Na sexta, apresentaram-se Los esqueiters, de Nao Albet e Marcel Borràs, e Monstres de Xavier Bobés, jovens criadores em ascensão no meio catalão em particular e no espanhol em geral. O primeiro trata-se de um encontro inusitado entre quatro jovens skaters profissionais (um norte-americano, um francês, um italiano e uma norueguesa) e dois filósofos franceses, interpretados, ou melhor dizendo, fingidos pelos dois criadores, músicos, bailarinos e actores.

Entre as habilidades dos skaters, coreografadas com graça, e a auto-ironia recorrente (o português John Romão, criador de várias peças com skaters, é citado), a peça propõe-se entender o “hail sky”, o momento de suspensão do tempo e do espaço que resulta da exaustão dos skaters ao fim de horas a praticar, como um momento de liberdade fundamental e soberana.

No horário mais tardio, apresentou-se Bobés, com uma peça entre a dança e o teatro de formas animadas, de manipulação de objectos da indústria e artesanato têxtil, desde máquinas de costura a manequins, culminando numa chuva de botões e presilhas.

Monstres foi a peça mais original desta mostra, revelando um universo muito pessoal e uma linguagem artística própria, de exploração da matéria sensível, do ruído, da música e da iluminação, que nos fazem ver os objectos comuns de outros modos.

No dia seguinte, La Veronal apresentou a sua visão da Rússia, com todos osclichés a que se tem direito, neve e carros de linhas rectas, fatos de treino, urso misha, como se ainda estivessem nos anos oitenta. Embora despretensiosos, lúdicos e originais, estes espectáculos não conseguiram passar o fascínio que os seus criadores pareciam ter pelos objectos e temas escolhidos (o skateboard, os objectos em desuso, as imagens da Rússia).

Os criadores mais velhos assentaram os seus trabalhos na tradição e na releitura, como se fizessem uma revisão da matéria dada; os mais novos preocuparam-se em trazer para a cena a cultura popular, dando-lhes novas roupagens. O contemporâneo já não é o que era.

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