O melhor de 2014

Listas há muitas. Esta é a minha dos dez melhores espectáculos do ano, feita para o Público. E mais um. 

1. – What happens to the hope at the end of the evening, de Tim Crouch e Andy Smith. Encenação de Karl James (25 a 27 de Setembro, Culturgest, Lisboa)

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A intimidade de Tim Crouch e Andy Smith com o público de Lisboa não é de menosprezar. Os principais trabalhos de ambos puderam ser vistos na Culturgest, e no último, The Author, os actores sentavam-se entre os espectadores. Neste espectáculo estamos ao mesmo tempo na sala de estar de Andy, intelectual conformado, e num teatro, assistindo ao seu reencontro com Tim, revolucionário desassossegado. Ao mesmo tempo que se confrontam estes dois destinos comuns dos movimentos políticos europeus, confrontam-se também dois modos de fazer teatro, um mais ficcional, outro mais documental, ambos pessoalíssimos. A sensação é de que se precipita numa noite única toda a história do mundo (e todo o teatro contemporâneo).

2. – Um Museu Vivo de Memórias Pequenas e Esquecidas, de Joana Craveiro, pelo Teatro do Vestido (13 a 16 de Novembro, Negócio/ZDB, Lisboa)

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Este Museu é feito de sete palestras — sobre a ditadura, a revolução e o processo revolucionário —, numa cornucópia de factos, depoimentos e documentos que abrange mais de 80 anos da História de Portugal. O lastro que a actriz traz para a cena é apresentado à luz da sua experiência como testemunha inconsciente dos anos 70. O lastro que cada espectador leva para a sala faz deste espectáculo um acontecimento cultural, maior do que uma peça de teatro. Um manancial para a dramaturgia portuguesa, assim este trabalho seja visto nos próximos anos.

3. – Ubu Roi, de Alfred Jarry, pela Cheek By Jowl. Encenação de Declan Donnellan (14 de Julho, Escola D. António da Costa, Almada / Festival de Almada)

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Declan Donnelan conseguiu minimizar a eventual resistência à escatologia de Ubu Roi, ao tratar a peça de Jarry como o delírio de um adolescente sobre os seus pais, e assim provar como a visão fantástica e cruel das crianças por vezes se aproxima mais da realidade do que as maneiras fingidas que os mais velhos usam entre si. A capacidade dos actores para se deixarem tomar pela imaginação teatral e oscilarem entre um registo realista, familiar, doméstico, e outro surrealista, aventuroso, épico, é uma prova da maestria do encenador.

4. – Demónios, de Lars Nóren, pelo Ao Cabo Teatro / O Cão Danado e Companhia). Encenação de Nuno Cardoso (13 de Junho, Centro Cultural Vila Flor, Guimarães / Festivais Gil Vicente; 8 de Novembro, Theatro Circo, Braga; 12 de Novembro, Teatro Académico de Gil Vicente, Coimbra)

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Nuno Cardoso conduziu quatro esplêndidos actores, através de um dos textos mais agressivos que se conhecem na dramaturgia ocidental, de modo a que a violência fosse credível, por um lado, e simbólica, por outro. Ecos de outras peças, de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Edward Albee, a Ocidente, de Rémi de Vos, soam como uma lembrança de traumas anteriores. O espectáculo torna-se um ritual macabro em que o amor é reduzido a cinzas, perante o horror dos espectadores.

5. – Protocolo, de Jorge Andrade, pela Mala Voadora (3 a 8 de Junho, Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa / Alkantara Festival; 11 a 15 de Junho, Mala Voadora, Porto)

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Um espectáculo sobre a etiqueta social que faz da etiqueta um espectáculo, a partir de uma descrição do protocolo na corte de Luís XIV e graças a uma coreografia da cordialidade habilmente montada. Se é uma paródia que apenas reafirma a distinção de classe, ou um exercício de ironia corporal que faz reflectir sobre as regras da sociedade contemporânea, isso caberá ao espectador decidir. A liberdade propiciada é total — menos para os actores, que se vêem e se desejam para acertar o passo.

6. – La Réunification des Deux Corées. Encenação de Joël Pommerat (10 e 11 de Julho, Teatro Municipal Joaquim Benite, Almada / Festival de Almada)

7. – Otelo, a partir de William Shakespeare. Encenação de Jaime Lorca, Teresita Iacobelli e Christian Ortega (16 e 17 de Setembro, Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa / Próximo Futuro)

8. – A Farsa, de Raúl Brandão, pela Karnart. Encenação de Luís Castro (25 de Setembro a 19 de Outubro, Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa)

9. – Al Mada Nada, a partir de Almada Negreiros. Encenação de Ricardo Pais (26 a 29 de Março, Teatro Nacional São João, Porto; 10 a 13 de Abril, Teatro Municipal Joaquim Benite, Almada)

10. – La Reunión, de Trinidad González, pelo Teatro en el Blanco. Encenação de Trinidad González (13 e 14 de Setembro, Teatro do Bairro, Lisboa / Próximo Futuro)

§ Esta Noite Improvisa-se, de Luigi Pirandello, espetáculo-exercício dos finalistas de teatro da ESMAE. Encenação de Nuno Carinhas (2 a 6 de Julho, Teatro Helena Sá e Costa)

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