Visita às reservas secretas do museu SAAL

A delicada construção deste Museu SAAL, mais um dirigido por Joana Craveiro, mostra tudo: o actor, os moradores do Bairro do Leal, a história desde antes do 25 de Abril, o presente. Não só mostra como, ao mostrar, age sobre a memória e talvez a transforme.

Foto de Alexandre Alves Costa

Museu SAAL – Memórias dos Moradores
de Joana Craveiro, com Victor Hugo Pontes
Bairro do Leal, 11 de Janeiro, 16h

Um actor leva os espectadores por um bairro, outrora foco de uma política de habitação social, o Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL). É tudo. Os moradores estão lá, mostram as casas, contam as histórias, não se deixam ficar. Dois arquitectos envolvidos nesse projecto, Alexandre Alves Costa e Sérgio Fernandez, fazem parte da visita, figurando, por instantes, em representação de si mesmos. Os participantes são levados por entre as ruínas das antigas ilhas, o número limitado de casas que chegou a ser construída e a imaginação do que poderia ter acontecido.

A partir deste bairro que, como diz o guia fictício, mas de carne e osso, Victor Hugo Pontes, “nunca existiu”, pode-se ver, por um prisma, muito da história do séc. XX português. Museu SAAL – Memórias dos Moradores é uma acção criada em complemento à exposição O Processo SAAL: Arquitectura e Participação, 1974-1976, patente no Museu de Serralves até 1 de Fevereiro. Exposição, performance e bairro deveriam ser obrigatórios.

O país é o próprio museu do seu passado, cheio de pessoas que se confundem com os objectos da exposição permanente, com as peças esquecidas nas reservas da colecção, com a parte do acervo em restauro nas oficinas, até com os visitantes acotovelados em frente às jóias da coroa. A curadoria não tem descanso. Peças novas, feitas velhas, chegam a toda a hora. Um megafone, por exemplo, até há pouco tempo objecto indispensável em qualquer agremiação, é hoje em dia praticamente uma relíquia, usada mais pelo poder evocativo que pela potência sonora.

Há épocas que perduram na memória como sendo comuns a todos, como praças no tempo. O megafone está exposto nas galerias destas últimas. Quando é visto um, em plena luz do dia, a ser utilizado como antigamente, há um misto de melancolia e excitação. É esse o sentimento dominante de Museu SAAL. Os objectos, as imagens, as pessoas e os lugares são expostos como se algo que foi um dia espoletado pudesse voltar a espoletar. O passado é uma granada enterrada no jardim, pronta a explodir, que nunca mais rebenta.

O teatro oferece, para quem tiver sorte, uma vista privilegiada sobre a república. Mais do que sintomas, até porque o tempo não é uma doença, nos palcos portugueses ganham forma ideias e sentimentos sobre o nosso destino. A delicada construção deste Museu SAAL, mais um dirigido por Joana Craveiro, mostra tudo: o actor, os moradores do Bairro do Leal, a história desde antes do 25 de Abril, o presente. Não só mostra como, ao mostrar, age sobre a memória e talvez a transforme.

Na forma de um irónico museu, este espectáculo-visita guiada mostra até os próprios processos de mostrar, entre outras coisas, o “nunca desmentido PREC” (como frisou José Afonso no concerto do Coliseu dos Recreios em Lisboa, em 1983). Mostra, além de contar. Não se trata de embalar ou entreter o público, nem de encher a mala da cultura geral, nem de expressar uma revolta juvenil, mas de actuar – agir e interpretar – sobre o tempo que nos é comum.

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