A ficção ajuda a contar a verdade

David Greig é um dos dramaturgos escoceses mais celebrados da sua geração. Os Acontecimentos e Frágil estreiam este mês no Teatro da Politécnica.

Jorge Silva Melo e Pedro Carraca no ensaio aberto de Frágil, no Centro de Documentação do TNSJ (foto Susana Neves)
Ensaio aberto de Frágil, no Centro de Documentação do TNSJ (foto Susana Neves)

Os Acontecimentos (2013) e Frágil (2011), de David Greig, estreiam este mês no Teatro da Politécnica, em Lisboa, com encenações de António Simão e de Jorge Silva Melo, e saem na coleção Livrinhos de Teatro, traduzidas por Pedro Marques, em conjunto com outra peça, Dalgety (2012).

Em Os Acontecimentos actuam um pequeno elenco (Andreia Bento, João Pedro Mamede e Maria Jorge) e um coro musical, escolhido e ensaiado no local onde a peça for apresentada. Frágil é interpretada por um actor (Pedro Carraca) e o próprio público, a quem cabe as falas de uma segunda personagem. Em Dalgety, David Greig não prevê a interacção com os espectadores nas regras do jogo, mas a peça é, como as restantes, uma parábola sobre a comunidade. Estes últimos textos de Greig ecoam algo que acontece fora do palco, como disse Jorge Silva Melo num ensaio aberto de Frágil, no Mosteiro de São Bento da Vitória, no Porto. Não é só o teatro que interpreta o mundo. O mundo também interpreta o teatro. Quem se transformará mais?

As peças do autor escocês têm sido produzidas pela Royal Shakespeare Company, pelo Traverse Theatre e pelo Plaine Plough desde os anos 90. Os seus trabalhos vão desde textos para o típico pub britânico (The Strange Undoing of Prudencia Hart, 2011), até adaptações para musicais (Charlie and The Chocolate Factory, 2013). Greig foi o primeiro dramaturgista do National Theatre of Scotland, fundado em 2006. Dear David (2014), um monólogo online, de cinco minutos apenas, criado no âmbito de um programa do NTS dedicado ao referendo sobre a independência escocesa, foi considerado o melhor trabalho de 2014 por Mark Fisher, crítico do The Guardian. The Events tinha sido no anterior, por Lyn Gardner, do mesmo jornal.

Os Acontecimentos diz respeito a um acontecimento específico. Qual foi o ponto de partida da peça?
Começou com as matanças em Oslo e Utoya, feitas pelo Anders Breivik. Senti-me muito transtornado com esse ataque. Transtornado porque gosto da Noruega, e via o país como uma espécie de paraíso social-democrata, talvez. Também fiquei assim por ser simplesmente um ataque contra crianças. Parecia de uma maldade peculiar. Não conseguia perceber bem porque é que uma pessoa faria aquilo. E por fim fiquei transtornado quando o li o manifesto dele. Parecia infantil, ele. Tolo. A desenhar uniformes para ele próprio, e a inventar nomes de condecorações que daria a si mesmo. Fiquei transtornado. Por isso quando Ramin Gray, que encenou a peça no Reino Unido, me abordou e perguntou se eu queria ir à Noruega com ele, fazer pesquisa e falar com as pessoas sobre os acontecimentos, fiquei interessado. Falei com muitas pessoas diferentes, políticos, psicólogos, jornalistas e noruegueses comuns, também. Só queria perceber o que tinha acontecido.

Como é que a peça foi acolhida na Noruega?
Levámos Os Acontecimentos em digressão, com o Braga Teatret. Foi bem recebida. Actuámos em Oslo e também num teatro perto da ilha de Utoya. Falei com alguns sobreviventes que acharam bem. Foi muito tenso pensar neles a ver, mas eles acharam positivo. Uma mãe, cujo filho era um dos polícias em Oslo e cuja filha estava em Utoya… contou-me que a peça fazia todas as perguntas que ele se tinha perguntado. É tudo o que eu podia desejar.

E o ponto de partida de Frágil, qual foi?
Com Frágil foi mais simples. A nova coligação governamental no Reino Unido começou a trazer cortes e austeridade aos serviços públicos. Convidaram-me a fazer parte de um espectáculo sobre esse assunto. Não sabia como abordar a questão porque não via razão para dizer a uma plateia uma coisa que eles já sabiam. Por isso, achei que seria interessante pôr a plateia na posição da pessoa que tem que tomar a decisão ‘Cortamos o quê?’. Pensei que seria uma experiência interessante ver se a plateia seria um ator na peça.

Criou uma maneira de envolver a plateia e a comunidade local, nestas peças.
Não teria conseguido escrever Os Acontecimentos sem a ideia do coro. Tive a ideia uma noite, na Noruega, quando, por acaso, nos sentámos a ver o ensaio do coro em que a mãe da nossa dramaturgista cantava. Foi só porque ela precisava de ir buscar a mãe depois do ensaio do coro. Não fazia parte do nosso itinerário. Mas eu tinha percebido que pesquisar sobre o Breivik me fazia sentir um desespero profundo. Sentia-me enojado e com aversão ao tema. Por isso perguntava-me se não era melhor desistir da ideia de escrever sobre isto. Foi quando me sentei no coro e foi como chuva num deserto, ou como um banho purificador depois de ficares coberto de terra. O simples facto de pessoas comuns se juntarem umas às outras, a cantar, levantou-me o ânimo. Percebi que se tivéssemos um coro em palco, podia ser muito sombrio no texto, sem a plateia ficar em desespero.

As suas peças têm vários tamanhos e formatos. Como é que decide que forma vão ter?
As minhas peças lidam sempre com a forma. Tento encontrar a forma certa para cada projeto. Não consigo escrever enquanto não encontro a forma certa. Mas cada peça é diferente. E tento não me repetir demasiado.

Estas duas peças continuam relevantes e actuais, mesmo tendo em conta o ataque ao Charlie Hebdo ou as execuções do autodenominado Estado Islâmico, por exemplo.
Sim, é triste mas é verdade. Frágil continua uma história que se pode reconhecer em toda a Europa, hoje em dia. Ainda mais Os Acontecimentos. Fico chocado com quantas vezes o “Rapaz” aparece nas notícias. Parece uma figura universal, de alguma maneira. Não fazia ideia que isto acontecesse mas parece verdade que sempre que uma atrocidade é cometida há por trás um rapaz de vinte e poucos anos… que joga computador… com um pai distante e uma mão perturbada… etc… É estranho.
Fiz bastante trabalho no Médio Oriente – passei muito tempo na Síria nos anos 2000. Também trabalhei no Egipto, na Palestina e na Tunísia. Muitos dos meus amigos são escritores que se envolveram na Primavera Árabe e que hoje em dia estão exilados ou expatriados ou, nalguns casos, a lutar pelos rebeldes, ou no exército sírio.

Como é que o seu trabalho foi acolhido nesses países do Mediterrâneo?
A minha peça Damasco (2007) fez digressão pela Síria, Líbano, Egito, Palestina e Tunísia em 2008. Foi controversa.

Sentiu-se desafiado a escrever, por estes acontecimentos recentes?
O Estado Islâmico interessa-me muito. Parecem muito teatrais. A maneira como encenam o terror é analisada dramaturgicamente. Enoja, de certa maneira. Sinto uma profunda repulsa e um ódio físico pela violência e crueldade deles. Afecta-me. Quando vi imagens de um rapaz a ser atirado de um prédio por soldados do Estado Islâmico porque dizem que era gay… o corpo dele visto a pairar no ar… um rapaz como tantos outros rapazes e raparigas que conheço naquela região. Senti uma angústia e uma raiva profundas. Mas, ao mesmo tempo, sei que eles são um espelho da violência e crueldade televisivas a que o Médio Oriente tem sido sujeito durante décadas. O ataque de um drone que acerta num carro onde vai uma criança… é mais ou menos violento que cortar a cabeça de um jornalista? O laranja do Estado Islâmico é mais ou menos violento que o laranja de Guantanamo? Essa combinação de violência encenada para ser vista e distribuída em público… que o Estado Islâmico faz, e que o Ocidente também faz… e, por outro lado, a maneira como nós, o público, parecemos atraídos pela violência — nos filmes e jogos de computador e vídeos online, no sexo… parece-me interessante e perturbador.
Na verdade, estou a tentar escrever algo sobre o Estado Islâmico agora, mas ainda não consegui nada.

Pode partilhar connosco pelo menos o que já sabe que não vai escrever?
Só conseguirei escrever quando encontrar uma forma que pareça redimir o espectáculo do seu lado pornográfico. Também preciso encontrar o que dizer sobre o Estado Islâmico que seja mais do que “Isto é mesmo mau”… As duas coisas são bastante difíceis e pode levar meses ou anos. Mas estou a tentar.

Estas peças foram publicadas, em Portugal, com Dalgety. Todas lidam com rupturas feitas por pessoas sem poder. Parece haver alguma esperança no regresso a uma relação mais directa com a natureza.
Sim, concordo. Cada peça é sobre o efeito do grupo e sobre a figura do excluído. Em Frágil o grupo é ao mesmo tempo o governo e a plateia, como coro. Em Os Acontecimentos, o “Rapaz” está só e o coro, ou a sociedade, são o grupo. Mas Claire, de Dalgety, também… Ela também se tornou uma excluída. O grupo aparece na forma de uma tribo que chega ao posto de polícia.
Dalgety é esperançosa. É uma peça de redenção, para mim. Fiquei muito satisfeito com essa peça porque fala aos meus sentimentos mais profundos, sobre o que é ser humano… nus, em tribos, a comer, a contar histórias, a tocar música. Nunca conseguimos ir além disso, mas isso é também a nossa redenção.
A peça foi inspirada pelo Naked Rambler, um ex-soldado que durante muitos anos tentou exercer o direito a andar nu pelo Reino Unido. A toda a parte onde ia, era preso. Foi posto na prisão, e lá ficou muitos anos, porque se recusava a usar roupa. Eu achava isto cómico e triste. Usar roupas diz-se que é “natural”! Estar nu é “não-natural”.
Em qualquer caso, acho que as piores coisas que acontecem no mundo acontecem quando os seres humanos vestem as suas roupas. Quando tentam fazer mais do que o ato de existir no mundo, com os outros. Aí é que começam os problemas. Dalgety tenta explorar isso na forma de comédia. Espero que seja cómica.

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