Sobre um Sol Subterrâneo

Na festa que assinalou a ocupação do Coliseu do Porto pelo Balleteatro, a Né Barros, o Alexandre Soares e o Flávio Rodrigues celebraram a sua adoração ao sol com este espectáculo. E eu escrevi algumas palavras de adoração aos artistas:

 

SOBRE UM SOL SUBTERRÂNEO

Entrar no coliseu e corrê-lo como se fosse uma criança, como se fosse um das dezenas de crianças que circulavam pelo espaço nesse dia de inauguração das actividades do Balleteatro ali, entrar naquele salão onde antes uma orquestra tocava e os pares dançavam mais ou menos agarradinhos, imaginar uma versão de O Baile, de Ettore Scola, entrar e encontrar um guitarrista e um bailarino coberto com um manto dourado, ou quase dourado, de tanto brilhar por dentro, sentar-me no chão e esperar — tudo isso preparou a experiência que estava para vir, o ato de assistir a esta criação da coreógrafa Né Barros, com o músico Alexandre Soares e o performer Flávio Rodrigues, uma espécie de prova, a demonstração de existência de um Sol Subterrâneo.

Depois, leria no programa que o título do espectáculo se deve a um poema de Luís Miguel Nava:

O sol é subterrâneo, aquele a que eu

me quero hoje estender é o do meu espírito, é preciso

cavar bem fundo até o fazer surgir.

Nesse momento, já a minha experiência se havia constituído de tal forma que as palavras do poema pareciam traduzir o que acontecera. Pois o som e o movimento naquele espaço tinham-me posto em comunhão com os performers através da partilha desse sol invisível, escondido, alquímico, de cada um, e o que eu vira fora dois artistas arrancando da terra com as mãos a própria vida, luz em todas as formas. No programa lia-se ainda que “este projeto coreográfico e musical encontra a sua ordem e desordem entre o céu aberto e o grito mais íntimo e profundo”. Foi então que fui convertido. Estas palavras descreviam o sucedido em mim. Acabara de participar numa cerimónia de iniciação a um culto sagrado da física dos corpos celestes e dos elementos subatómicos. Órfãos do xamanismo, os contemporâneos têm que reinventar esse contacto original com o sol interior, e reaprender a alquimia para descobrir a pedra filosofal que é cada um de nós e, ao mesmo tempo, todos nós somos. O Coliseu já me parecia um templo das ciências do oculto, na viragem do séc. XIX para o XX, em que dança, bombismo e astrologia se intersectavam doidamente.

O misticismo tem limites. A minha base é material. Os dois performers mostraram não só o repertório vasto que possuem, e o domínio total que têm das respectivas linguagens artísticas, mas também o que não têm e o que não sabem ainda. Explico-me: explorando as suas capacidades técnicas para ir mais além, além da execução perfeita, com o fim de descobrir outras coisas, abriram o campo de possibilidades da forma musical e e da forma coreográfica, permitindo aqui e ali vislumbres do que até então era invisível na experiência do mundo. Falo da experiência concreta do mundo, tanto dos corpos em movimento nas ruas e nas instituições — colégios, cafés, shopping center — que se vêem nos media — cinema, TV e internet — como nos sons e ruídos mais ou menos espontâneos, mais ou menos artificiais, que povoam o nosso dia-a-dia, os nossos sonhos, o nosso imaginário partilhado. O espectáculo fez-se percorrendo todas as dimensões possíveis do corpo e dos instrumentos, todas as imagens do corpo masculino em esforço e propulsão, do desporto à luta, do sexo à dança, e todo o espectro auditivo, acordes, barulhos, notas cristalinas, com uma banda sonora que saía dessa função e categoria para se alçar ao trabalho de interpretação e contracena — quanto mais não seja porque ali estava também um compositor e intérprete, em diálogo com a cena e o outro intérprete. E foi ao percorrer esse caminho, ao gerar esse fluxo, que se viu emergir o campo quântico, onde fulge o tal sol subterrâneo, e onde o poema coreográfico se junta ao poema original.

A guitarra em distorção como tensão e alívio, a corrida, o salto, a repetição, enfim, inúmeros outros aspectos desta criação, são como partículas elementares da vitalidade em arte, articulações não-verbais, postas no mesmo lugar da voz, essa coisa que já não é corpo e ainda não é fala (como coloca o antropólogo Joaquim Pais de Brito), elementos cuja combinação faz irromper em chamas o que até então eram apenas brasas desse fogo interior antigo, que nos consome, do qual nos afastamos vezes sem conta quando nos mortificamos, fogo que ao arder em euforia, se nos reduz à matéria-prima, também nos faz regressar, uma e outra vez, das cinzas, lavrando com destemor.

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