O eixo Belém-Ajuda era a Re-exposição do Mundo Português?

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Rios de tinta correram a propósito da demissão de Antonio Lamas do CCB, e na internet há pelo menos duas petições electrónicas, uma a pedir que João Soares se vá embora, outra a pedir que Lamas regresse ao CCB. Tanto barulho para quê? Entretanto, o novo presidente do CCB, que também é do património, tem outra estratégia, e a Câmara de Lisboa até já propôs uma alternativa. O que mudou?

Há duas ideias que o eng.º Lamas trouxe para a presidência do CCB. Uma foi a de promover a comemoração da Exposição do Mundo Português de 1940 com uma outra exposição, documental. Esta exposição, como o próprio declarou, não iria “enquadrar a ideologia que fomentou” a mostra original, mas sim ter tão somente “um olhar urbanístico”. (Como se as coisas apresentadas sem ideologia visível não fossem, afinal, as mais carregadas dessa mesma ideologia. O objectivo era refazer a memória do espaço.)

A outra ideia foi criar um eixo Belém-Ajuda que desse mais lucro ao CCB, vendendo como um pacote cultural a experiência de visita aos monumentos. São duas faces da mesma ideia. Tanto a celebração da exposição de 1940 quanto a celebração do turismo de 2015 reeditam a Exposição do Mundo Português. Suprimem-se as referências à ideologia dos anos 1940 para se poder fruir à vontade o espaço dos anos 2010, tendo como única referência histórica os descobrimentos. E o projeto ainda pode alimentar um certo orgulho pátrio nos engenheiros, arquitectos e propagandistas que, em plena Segunda Grande Guerra, conseguiram levar a cabo a empreitada. É oferecido para consumo interno e externo o sentimento de predestinação coletiva. Deve ser por isso que se acumulam na imprensa as referências ao papel do Eng.º Lamas na edificação do CCB, junto com o facto curioso de ter nascido na Junqueira.

A mistura de cultura com turismo e com renovação urbana é mais uma ideia brilhante do novo senso comum. Essa mistura contém a promessa da regeneração de uma dada área, que apesar de ser destinada ao consumo turístico, poderá afinal ser aproveitada por todos. E fará aumentar as receitas, o que acabará, acredita-se, por regenerar a cidade. Quem pode discordar disto? O problema é que as regenerações são sempre feitas à custa de algo ou alguém. No caso, do próprio CCB, dos que lá trabalham e dos que o frequentam.

Ninguém Ajuda Ninguém

O projecto de acentuar o carácter emblemático da zona, tornando-a num grande fetiche histórico, só teve paralelo no projecto de reduzir as actividades artísticas do CCB, mitigando o carácter emblemático da instituição na cultura do país. Apesar de ter afirmado, a poucos dias de ser demitido, que fazia falta um director de programação, foi precisamente a presidência do eng.º Lamas que conseguiu a proeza de nunca nomear ninguém para o cargo. Em vez de racionalização, o que houve foi precarização laboral, posta em marcha desde a primeira hora. Até os serviços de cafetaria passaram a internos, quando antes era concessionados. A lógica do lucro é implacável. A missão do CCB estava a ser adaptada a essa lógica. O que estava a ser montado era uma máquina de fazer dinheiro, mascarada de terra dos sonhos. Uma máquina assente na precariedade de uns e no turismo dos outros — como em Sintra, aliás. Mas que mal tem essa lógica? Só para quem fica de fora.

O plano Belém-Ajuda Lamas tinha dois prejudicados principais: as tesourarias da Direção-Geral do Património Cultural e da Câmara Municipal de Lisboa. Com o plano, ambas perderiam fontes de receita muito importantes, assim que saíssem das respectivas alçadas alguns dos lugares mais visitados do país. E talvez estas instituições também temessem a concorrência do eixo Lamas na caça ao turista. Terá sido por isso que o principal argumento utilizado para a demissão do eng.º Lamas foi a falta de solidariedade com a Câmara Municipal de Lisboa? E que o governo PSD/CDS não aprovou o eixo, nem nos últimos dias do seu mandato? A substituição de Lamas obedeceu à mesma lógica do lucro? Ninguém queria o parque Bel-Aju. Ou queria? Até ver, ao instinto de propaganda e à queda para os negócios da administração Lamas sobrepôs-se finalmente o interesse público, na pessoa de quadros do Estado que têm por obrigação defender as artes e o património cultural, acima de qualquer outra coisa. Veremos como resistem ao espírito comercial dos tempos.

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