Ó tempo, anda prà frente

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Estalo Novo (MAISMENOS) / Salazar de Emergência, em caso de falta de Fé (Jorge Pereira)

Em atualização…

Estive ontem em Montemor-o-Velho, no Teatro Esther de Carvalho, a convite do CITEC, a falar sobre a memória da revolução nos 40 anos da dita. Eis a lista de espectáculos, por ordem cronológica, que evocam directa ou indirectamente o Estado Novo e o 25 de Abril, em que me baseei:

— (2010) 1974;
— (2012) Diz-lhes que não falarei nem que me matem; Três dedos abaixo do joelho; O medo que o general não tinha; Madrugada;
— (2013) Estalo novo; Um dia os réus serão vocês;
— (2014) TSF ocupada; Coriolano; Tropa fandanga; Al Mada Nada; Pílades;
— (2015) La vida es sonho; 24A74 – Salgueiro Maia; Um museu vivo de memórias pequenas e esquecidas; Museu Saal; No limite da dor; Ifigénia, Agamémnon e Electra; Três irmãs (making of).

Comecei por classificar os espectáculos conforme a(s) época(s) a que se referem, e o modo como articulam essas épocas entre si. Por exemplo, Um Museu Vivo vai da origem da ditadura aos nossos dias, cada palestra tratando de períodos específicos, que podem ter a duração de anos (a guerra colonial), ou um dia (o golpe). Alguns espectáculos tratam de apenas um caso em particular, ao longo de algum tempo, como em Um dia os réus serão vocês (o julgamento de Álvaro Cunhal); outros de vários casos, ou mesmo partes de casos, ao longo de vários anos, como Três dedos abaixo de um joelho; outros tratam do caso geral, digamos assim, ao longo de um período mais indeterminado, como 1974. aAguns espectáculos que só evocam metaforicamente a cronologia da ditadura e da revolução, por terem uma fábula que não corresponde à letra mas apenas ao espírito da história, criam uma cronologia alternativa, como numa dimensão paralela, mas ainda assim linear, como é caso de Coriolano, de Pílades ou da trilogia Ifigénia, Agamémnon, Electra. Estes exemplos seguem mais ou menos um linha do tempo que avança sem recuar, do passado para o presente. Mas noutros espectáculos os episódios são apresentados sem seguir a ordem cronológica, invertendo e revertendo a ordem dos factos na montagem das cenas, ou às vezes em simultâneo no palco, justapondo épocas não contíguas, como no terceiro ato de Três irmãs (making of), apresentando o que vemos como memória das personagens em cena. Noutros espectáculos ainda as figuras e eventos históricos são evocados por falas e imagens do passado em sobreposição com outras imagens e falas, ou gestos e situações, seja do presente da cena seja da atualidade do país, fundindo as épocas e os tempos, como em O medo que o general não tinha e, também, Três dedos ou Um museu vivo, ou, ainda, no final de Tropa Fandanga, quando se ilustra a frase “a revolução é um momento” com a existência de cravos nas canos das armas (ou vice-versa). Finalmente, a ocupação simulada da TSF pelo Bando não apenas sobrepõe como faz coincidir a época histórica com a atualidade. Não será demais dizer que a concepção do tempo e, em particular, da história são importantes na concepção destes espectáculos.

Assim como o tempo é reproduzido de várias formas, também os factos são apresentados de diferente modo. Nalguns espectáculos os atores encarnam figuras históricas, noutros recriam personagens fictícias, noutros narram os episódios. Nalguns espectáculos são representados discursos verídicos, noutros são apresentados documentos, noutros são reconstituídas situações. E há espectáculos onde estas modalidades se cruzam. Esta questão tem a ver, de novo, com o modo como a história é recriada. A revolução é mais ou menos distanciada, mais ou menos imitada, mais ou menos reconstituída, mais ou menos atualizada, conforme o momento presente é mais ou menos assumido. Entre o ator que finge ser uma figura do tempo da revolução e o espectador que revela um documento do passado em palco, há um mundo de combinações possíveis, que dizem respeito à memória, à atualidade e à urgência da revolução — em cena. Não se trata apenas de averiguar qual a concepção de tempo e de história por trás destes espectáculos, mas de saber como estes autores olham o processo histórico (de frente, de lado, de soslaio, etc.), qual a posição que adoptam dentro do processo histórico e, sobretudo, como imaginam o futuro. Espectáculos como Três dedos, O medo e Um museu vivo têm como matéria tanto a informação sobre o passado quanto as circunstâncias atuais dos seus criadores, e como forma a montagem, a colagem, o tempo narrativo não-linear, o espaço cénico feito de sobreposições e justaposições; enquanto outras peças praticamente excluem a referência explícita ao momento presente, e moldam a matéria histórica segundo a forma da reconstituição ou da ficção, num tempo narrativo linear e unidirecional, num espaço cénico estático. Qual destes tipos, passe a simplificação, aponta para o futuro? O tempo linear parece preso ao passado, mas pressupõe uma continuidade. O tempo não-linear está em permanente atualização, mas não avança. Qual destas simplificações será mais revolucionária? Os espectáculos que melhor conseguirem estruturar uma experiência de transformação levarão a palma.

O exercício de classificação revela que uma das principais questões destes trabalhos é como formular o momento da revolução sem trair a sua forma de ruptura do tempo. Como mostrar a mudança da história sem a travar? Como mostrar o movimento num lugar parado? O teatro, preso na contradição entre repetir e acontecer, está simultaneamente obrigado e habilitado a responder a essa pergunta. A geração nascida nos anos 70 conseguirá, depois dos 40, falar, olhos nos olhos, com a revolução? Só o tempo dirá.

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