Ana Cristina César a gosto

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Tudo que eu nunca te disse, dentro destas margens.
A curriola consolava.
O assunto era sempre outro.
Os espiões não informavam direito.
A intimidade era teatro.
O tom de voz subtraía um número.
As cartas, quando chegavam, certos silêncios,
nunca mais.
Excesso de atenção varrido para baixo do capacho.
Risco a lápis sobre o débito. Vermelho.
Agora chega. Agora, aqui, de repente, de
propósito, de batom,
leio: “Contas Novas”, em letras plásticas.
Três variações de assinatura.
Três dias para o livro de cheques desta agência.
Demito o agente e o atravessador.
Felicidade se chama meios de transporte.
Saída do cinema hipnótico. Ascensão e queda e
ascensão e queda
deste império mas vou abrir um lacre.
Antes disso, um sus: pousa aqui. Ouve: “Como
em turvas águas de enchente…”
É lá fora. Espera.

Ana Cristina César

Performance Arte Portuguesa 3

4 2015 AP

O último dia começou com as comunicações “Traduzir Oralidade: O futuro da arte? de Ernesto de Sousa”, de Pedro Barateiro; “Os Rituais Tradicionais Portugueses na performance de Armando Azevedo e Albuquerque Mendes”, de Beatriz Albuquerque; e “O engajador engajado”, apresentada por mim.

Falei sobre as evocações do Brasil nas peças Velocidade Máxima (2009), do Coletivo 84; Vontade de Ter Vontade (2012), de Cláudia Dias; Os Serrenhos do Caldeirão (2012), de Vera Mantero; Espectáculo Absoluto (2014), do grupo Sr. João; Museu Encantador (2015), de Rita Natálio e Joana Levi; Colecção de Amantes (2015), de Raquel André; I Can’t Breathe (2015), de Elmano Sancho; e Alla Prima (2015), de Tiago Cadete (na foto — Alla Prima que pode ser vista ainda hoje na Rua das Gaivotas 6, em Lisboa, e, de hoje a oito, no Citemor). Entre o teatro, a dança e a performance art, esta mão cheia de peças é inclassificável quanto ao género, mas também quanto ao tema e ao contexto de produção. Dão origem a experiências híbridas, mestiças e precárias, quando muito. Alguns traços têm em comum: a exposição do corpo dos próprios autores, que são também actores, bailarinos ou performers; a companhia de não-actores em cena; a enumeração de factos, imagens, hipóteses, citações e encontros. No horizonte, a emigração.

A seguir, Cláudia Giannetti, a segunda keynote speaker, fez uma intervenção intitulada “Metaformance: Corpo – Interface – Interactor”. À tarde, foi a vez de António Contador, com “A polidez, grau zero do gesto artístico : o caso do senhor do adeus”; Ana Pais, com “Longe da vista, perto do coração”; Susana Chiocca, com “Corpos laminais”; e Ana Dinger e Fernanda Eugénio, com “METÁLOGO #4 – histórias & geografias da performance”. Seguiu-se a terceira parte dos Diálogos Performativas, com Vânia Rovisco, Manoel Barbosa e António Olaio, e logo depois a sessão de encerramento do simpósio. Este encontro continua no Porto e em Coimbra, em datas formatos a anunciar.

Perfomance Arte Portuguesa 2

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Duas cronologias, uma do ACARTE entre 1984 e 1989, da autoria de Ana Bigotte Vieira, e outra da Arte da Performance Portuguesa, de Sandra Guerreiro Dias, marcam esta segunda manhã do simpósio Performance Arte Portuguesa. No primeiro painel, além de Bigotte Vieira, intervieram Hélia Marçal e Daniela Salazar. No segundo, Guerreiro Dias e Ana Rito. À tarde, falarão Rui Mourão, Rita Castro Neves e João Garcia Miguel. No fim do dia, Paulo Mendes apresenta uma nova versão da performance “THE POSTCOLONIAL SINGER”, a que se seguirá um debate com, além do performer, Filipa César, Manuel Botelho, Albuquerque Mendes e Susana Mendes Silva.

Na tarde de quarta-feira houve intervenções de Mariana Brandão, Verónica Metello, Bruno Marques e Alexandra do Carmo. Depois, foi projectado um curto filme, “O laboratório artístico saltou para a rua em 1974, uma conversa entre Ernesto de Sousa e Melo E. Castro”, a que se seguiu uma mesa-redonda com Fernando Aguiar, Rui Orfão, Manoel Barbosa e o próprio E. M. de Melo e Castro, que abriu a sessão com uma performance inédita em Portugal.

Perfomance Arte Portuguesa 1

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Começa hoje o simpósio Performance Arte Portuguesa: 2 ciclos para 1 arquivo, no Museu Coleção Berardo. Abriu agora com Cláudia Madeira, Fernando M. de Oliveira, Hélia Marçal, Paulo Filipe Monteiro e Pedro Lapa na mesa da sessão de abertura. O orador que dará o tom para as intervenções de hoje é — dentro de minutos — António Olaio. O programa está aqui. A brochura do evento aqui.

(No coffee-break houve pastéis de Belém.)

O primeiro painel do dia, com moderação de Liliana Coutinho, tem intervenções de Filomena Serra, sobre Ângelo de Sousa; de Sónia Pina, sobre o movimento Fluxus, e em especial Ernesto de Sousa; e de Isabel Nogueira, sobre várias ações no pós-25 de Abril, e sobre Egídio Álvaro. O dia de hoje é dedicado às histórias da performance em Portugal. Este painel dá notícia de várias acções, performances e happenings em várias cidades de norte a sul do país, desde o final dos anos sessenta aos anos oitenta.

Antes só que mal acompanhado

Viajantes Solitários

Chega amanhã a Lisboa, ao D. Maria II, a dupla de atores camionistas Estêvão Antunes e Simon Frankel, a bordo do espectáculo “Viajantes Solitários”, estreado o ano passado em Viseu. No Porto, o espectáculo pôde ser visto uns tempos antes de “Espólios”. Este último espectáculo, recorde-se, tinha uma ligação mais estreita a “Esta é a minha cidade” (2012) e a “Até comprava o teu amor” (2014). Todas estas peças remetem para negócios propriamente ditos, ou para a compra e venda de mercadorias. Ironicamente, “Esta é a minha cidade” já não poderia ser feito da mesma maneira, porque a compra e venda de propriedades imobiliárias no Porto, à volta do Mosteiro de São Bento da Vitória, não o permitiria. E “Até comprava o teu amor” muito menos, visto que o Palacete Pinto Leite está nas mãos de milionários, salvo erro plutocratas de Angola.

Os negócios e os amores estão sempre associados, ainda que, a maior parte das vezes, em oposição. Um exemplo dos clássicos: “Medida por Medida”, de Shakespeare. Mas o que o Teatro do Vestido faz é mais de acordo com o princípio da dádiva que outra coisa. As suas práticas encantam os objectos, as casas, as ruas, ao explicitar as relações humanas que dão significado às coisas. Não é pouco, num mundo soterrado de mercadorias brilhantes e luzidias como é o nosso. E, claro, por isso é tão importante ver e ouvir as narrativas da intimidade que as pessoas têm com as coisas que as fazem recordar outras pessoas, outros lugares e outras épocas.

Voltando aos “Viajantes Solitários” (e usando “Espólios” para pensar neles): se as casas, e as coleções de objectos que habitam as casas, contam a história das pessoas, dá vontade de perguntar que histórias se podem contar acerca das pessoas que levam e trazem esses objectos. “Viajantes” mostra esse objecto total que é o camião, colado à estrada, como equivalente às casas e ruas de outras peças do Vestido.

A noção de que esses homens, como se fossem os últimos dos aventureiros, estão na linha da frente de um combate imaginário contra a transformação das pessoas em coisas, quem a tem? Talvez, ao ter ideia disso, possamos ter uma medida do desperdício das suas vidas. É precisamente por fazerem parte, eles próprios, do grupo de trabalhadores mais explorado que há, o grupo daqueles que carregam coisas mais valiosas que eles, que a sujeição total aos negócios deve ser recusada de modo absoluto. As histórias de amor e ócio destes viajantes dão-lhes a dignidade que a exploração do trabalho lhes tenta tirar.

Lançar Diálogos: Crítica de Artes do Espetáculo e Esfera Pública (3)

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Depois da intervenção matinal de Diana Damian-Martin, repleta de provocações, seguiu-se um emocionante debate, em que a casta de críticos, ou pelo menos a parte da casta que estava presente, teve a oportunidade de parar e olhar em volta os caminhos tomados e por tomar.

Seguiu-se, à tarde, a fala final de Luiz Fernando Ramos, “A cena da crítica contemporânea: artes expandidas e sociedades contraídas”, em que o orador traçou um panorama geral das artes cénicas dos últimos tempos, remate perfeito para os dois dias de debate. Luiz Fernando defendeu a existência de uma “cena expandida”, que passou a caracterizar em termos que ultrapassam a dimensão deste blogue.

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Chamando à colação Hume, Kant e Oscar Wilde, Ramos mostrou como o desempenho de atores e espectadores assenta numa mimesis performativa, não meramente dramática, mas também relacionada com as outras artes, seja como espelhamento seja como inovação. Uma mimesis mais distante do teatro do que soía, e da qual já há suficientes exemplos para se poder chamá-la uma tradição pós-moderna. A verificar no volume Mimesis performativa: a margem de invenção possível, da editora Anna Blume.